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Edição 176 - Setembro/20

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cidadania

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Uma Páscoa de verdade
aconteceu na minha cidade

Flávia Manfrin
Ouça esta matéria
Locução: Bibiana Salles

No domingo de Páscoa de 2019, segui mais uma vez para o café da manhã dominical da Vila Divineia, um bairro da minha pequena Santa Cruz do Rio Pardo carente de apoio social. Assim como vinha fazendo todas as semanas desde o final de novembro de 2018, estava dando um apoio ao evento comunitário do bairro, levando leite (tipo A e pasteurizado) e alimentos como pão de queijo, brioches e frutas (estas, incluídas no cardápio a partir de maio do mesmo ano). Naquele domingo, fui pessoalmente acompanhar o café, levando 100 ovos de páscoa diminutos, ocos, de menos de 30g, que custaram R$ 1,00 cada e consumiram R$ 100,00 do orçamento de R$ 200,00 semanais que eu tinha naquela época – atualmente coletamos R$ 350,00 por semana em doações e nossa ação transformou-se numa merenda, distribuída aos sábados para crianças e adolescentes.

Eu estava feliz de ter conseguido aqueles ovos. Ao chegar lá, havia mais de 100 crianças, contrariando o número médio de frequência, que girava entre 50 a 70 pessoas, entre crianças e adolescentes. Tratei de conseguir mais algumas unidades. Até que apareceu um grupo de torcedores do Palmeiras com bombons para as crianças. Juntamos tudo e distribuímos da maneira mais equitativa possível para todos. Eu devia ficar feliz, mas não.

Nunca vou esquecer a expectativa das crianças à espera do chocolate de Páscoa, que foi entregue no encerramento do café. Elas fizeram fila e vieram pegar sua porção com um grande entusiasmo e vontade. Aquilo doeu muito. Afinal, estavam recebendo muito, mas muito pouco. Muito, mas muito menos do que a maioria das crianças da cidade. Sim, porque ao contrário de grande parte deste país, nossa cidade tem uma boa renda per capta, também bem distribuída. Eles, enfim, estavam recebendo muito, mas muito menos, do que um criança espera e deseja na Páscoa, a festa que se transformou num delicioso exagero em consumo de chocolate.

Voltei para casa pensando que aquilo não iria se repetir. Porém, a rotina do meu trabalho com o jornal (faço quase tudo deste 360) e com as doações semanais da VAL, a nossa Vaquinha do Alimento, programa que criei e coordeno há cerca de um ano e meio, tiraram do meu horizonte essa questão da Páscoa das Crianças. Até que chegou março de 2020 e com ele, o isolamento social provocado pela epidemia do coronavírus.

Ajudar, ajudando – Na nossa cidade, existe a Chocolataria Frei Chico. Ela surgiu há mais de 30 anos, exatamente da vontade do saudoso padre dominicano Francisco Pessutto e de seus auxiliares na condução de duas entidades assistenciais da cidade – a Creche São José e a Casa de Acolhimento Adelina Aloe – em presentear as crianças com de chocolates na Páscoa. Caros como costumam ser os ovos de Páscoa, eles aprenderam a fazer artesanalmente, para poder contemplar cada criança que atendiam naquela época. Deu tão certo que a novidade ganhou fama. E os ovos de chocolate Frei Chico passaram a ser vendidos, transformando-se na principal fonte de renda das entidades.

Como já reportamos em nossas edições anteriores, a Chocolataria Frei Chico produz milhares de ovos, feitos com mais de uma dezena de toneladas de chocolates por ano. Com a chegada da epidemia e a necessidade do isolamento, ela precisou fechar suas portas e, a exemplo de todo o comércio, vender seus produtos através de encomendas e delivery. Como todo o comércio, a entidade se viu diante de uma possível queda brusca e de grandes proporções em suas vendas. E isso me fez querer ajudar.

Assim como a Vaquinha do Alimento nasceu rapidamente da vontade de ajudar pessoas – conheça a história a seguir, também a campanha VAL de Páscoa foi lançada em questão de dois dias. E em quatro já tinha atingido nossa meta: comprar 120 ovos da Chocolataria Frei Chico com o peso mínimo de 300g. A mecânica da campanha se deu 100% on line. Com a ajuda de três voluntárias e dos 80 doadores regulares da Vaquinha do Alimento, espalhamos flyers virtuais pedindo ajuda para a compra dos ovos, com o valor mínimo também equivalente à trimestralidade da Val: R$ 50,00. O grande diferencial da campanha é que ela não iria beneficiar apenas a Chocolataria Frei Chico, onde compramos um total de 204 ovos de páscoa recheados com bombons, sendo 190 de 300g e 14 de 200g, num total de R$ 5.621,20. A campanha beneficiou também as crianças que atendemos semanalmente na VAL e ainda muitas outras, já que foram 204 ovos.

Com a compra feita, às vésperas da Páscoa, o resultado da campanha ultrapassou o custos dos ovos, chegando a    R$ 6.200,00. O excedente foi usado para comprar assados para seis entidades, entre elas o Lar Adelina Aloe e o Lar da Criança, que juntos somam cerca de 43 crianças e já ganham ovos de Páscoa do Frei Chico. Ainda sobrou um pequeno valor,  que usamos na nossa compra de itens da Val, que durante essa época de quarentena, deixou de ser semanal para prover 60 famílias com kits de alimentos e itens de higiene e limpeza.

Moral da história – Essa experiência preencheu os meus dias de isolamento de uma felicidade que poucas vezes experimentei de maneira tão intensa e duradoura. Não tive a honra de entregar nenhum desses itens, pois estou convicta em meu isolamento já que tenho 55 anos e uma imunidade que não anda no melhor dos níveis. Mas acompanhei remotamente a alegria das crianças e adolescentes em receber um ovo digno da expectativa que todos têm quando chega a Páscoa. Ou seja, de maneira indireta e sem tê-la como meta, eu acabei realizando a minha determinação de proporcionar uma Páscoa mais digna às crianças e muito mais pessoas.

O leitor poderá pensar que trata-se de uma data comercial. Que ovos de chocolate custam muito mais caro do que tabletes. É verdade. Mas não fui eu quem inventei isso tudo. E não há nada mais justo e digno do que todas as crianças poderem viver esse momento com a mesma qualidade que todas as outras. Ainda mais quando essa fartura serve de sustento para uma entidade.

Páscoa é doação – Essa campanha trouxe para o campo da realidade a essência da Páscoa. Afinal, foi na Páscoa que o Cristo se doou por todos nós. Além de mim e das pessoas que me ajudaram voluntariamente nessa campanha, outras 67 pessoas, que fizeram as doações, puderam experimentar o verdadeiro sentido da Páscoa, pois conseguimos transforma essa data de maneira inclusiva para mais de 330 pessoas. O retorno que tive desses doadores foi extraordinário, pois sentiram o quanto sua decisão em doar um ovo de Páscoa trouxe alegria não só para quem os recebeu, mas para todos que doaram e trabalharam por isso. Passar em meio a essa emoção um domingo de Páscoa isolada de minha família, como foi meu, não poderia ter sido mais perfeito.

Conheça a
Vaquinha do Alimento

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Locução: Bibiana Salles

A Vaquinha do Alimento é um programa de inclusão alimentar criado em novembro de 2018 para levar alimentos saudáveis para crianças de um bairro carente de Santa Cruz do Rio Pardo, a Vila Divineia. Com um mecânica bastante simples e fácil de praticar, foram criados grupos de 12 doadores que se revezam na doação de R$ 50,00 por semana, o que significa que a doação é apenas trimestral.

Sem pesar no bolso das pessoas, esse sistema também facilita o trabalho de coletar as doações, feitas por transferência bancária para quem prefere ou mora em outras cidades – a Vaquinha do Alimento tem doadores até na Irlanda e nos Estados Unidos –, doação em dinheiro ou compra direta no supermercado onde o doador tem conta.

Nascida com três grupos de doadores, ou seja, com um orçamento semanal de R$ 150,00 destinados à compra de leite tipo A, pães de queijo, brioches e iogurte para cerca de 100 crianças, atualmente a VAL, como é chamada, possui sete grupos de doadores, num total de 84 pessoas, além de contar com três voluntários que ajudam nas compras e distribuição dos alimentos e doadores anuais, que concentram o valor de R$ 200,00 numa única doação, geralmente programada para a Festa de Reis, quando as crianças ganham alimentos especiais. Tem ainda uma doadora master, que contribui mensalmente e cujas doações ajudam na compra de itens como geladeira (usada), pratos e canecas. Completa o time a idealizadora e coordenadora do projeto.

A solicitação das doações e a divulgação dos cupons de compras e das fotos da distribuição são feitas pelo whatsapp, principal canal de comunicação do programa. O público em geral pode acompanhar as ações da VAL pelo facebook, na fanpage Vaquinha do Alimento.

Atualmente o grupo está fechado, mas quando por alguma razão um doador interrompe as doações, a VAL divulga a vaga ou inclui  quem esteja na lista de espera. O sistema de doações e gastro é controlado por uma planilha, aferido por uma das voluntárias e divulgado para os doadores.

A transparência, eficiência e facilidade de implantar e manter a Vaquinha do Alimento funcionando, bem como a determinação em incluir na dieta das merendas semanais leite de saquinho tipo A, um ou dois itens de panificação, suco ou iogurte e frutas são as principais diretrizes do programa que já contabiliza mais de  70 semanas ininterruptas de atividade. Entre ações semanais e campanhas, a VAL já doou mais de R$ 20 mil em alimentos para crianças e adolescentes da cidade no período de cerca de 18 meses de atividades.

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