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Edição 177 - Outubro/20

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meio ambiente

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Quarentena, meio ambiente e
uma nova era se aproximando

* Edson Luís Piroli
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Locução: José Eduardo Piedade Catalano

Imagens de satélite das regiões mais impactadas pela pandemia do Covid-19 no mundo, mostram mudanças ambientais significativas após a implementação de quarentenas. Dentre as mudanças observadas, destacam-se a redução da poluição atmosférica na região de Wuhan, na China, onde se iniciou a pandemia, assim como na Índia, país que, em 2019, teve 21  das 30 cidades mais poluídas do mundo.

Na cidade de São Paulo, após duas semanas de quarentena foram registradas em todas as 29 estações de monitoramento da CETESB, qualidade do ar boa para os poluentes primários (aqueles emitidos diretamente pelas fontes poluidoras). A CETESB informou que além do menor número de veículos em circulação, as condições mais livres do trânsito e a ausência de engarrafamentos também contribuem para uma menor emissão de poluentes.

Na Itália, dados do satélite Copernicus Sentinel-5p da ESA revelam que as concentrações de dióxido de nitrogênio na atmosfera também reduziram de forma acentuada nos meses de fevereiro e março, principalmente no norte do país, que é mais industrializado e que foi muito afetado pelo Covid-19. Mas lá as mudanças observadas não foram somente relativas ao ar. Em Veneza, a imposição da quarentena obrigatória, além de reduzir o trânsito de automóveis e aviões, também diminuiu o número de barcos pelos canais da cidade. E sem a grande circulação de gôndolas e turistas, as águas dos canais ficaram mais claras e os moradores puderam ver cardumes de peixes, cisnes e até golfinhos nadando pela primeira vez em muitos anos.

Na Índia, um dos países mais poluídos do mundo, e onde em Nova Delhi foi declarada emergência de saúde pública devido aos perigosos níveis de poluição em novembro de 2019, um representante da organização ambientalista Care for Aid dis-
se à CNN que “não via um céu tão azul em Delhi há uma década”.

No Brasil, em São Paulo, a professora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), que analisou os dados da Cetesb a pedido da Agência FAPESP, Maria de Fátima Andrade, disse que “Há menos ruído, consegue-se ouvir mais os passarinhos e também há menos poluição. Esse céu mais limpo que pode ser notado em São Paulo é resultado da redução na circulação de veículos, a principal fonte de emissão de poluentes na cidade. Como uma grande parte deles deixou de circular, fica clara a diminuição de poluentes primários como o monóxido de carbono (emitido principalmente pelos carros) e os óxidos de nitrogênio (emitidos sobretudo por veículos a diesel), que pode ser confirmada nos dados atmosféricos”.

Ainda no Brasil, a pesquisadora Adriana Wilken, do CEFET-MG, explicou em entrevista ao jornal Estado de Minas que “menos combustíveis fósseis estão sendo queimados nos fornos das indústrias e nos tanques de combustão dos veículos, daí a redução dos poluentes gerados nesses processos emitidos para a atmosfera”. Aponta que essas substâncias são responsáveis pelo agravamento de problemas de saúde e de danos ambientais. Poluentes como monóxido e dióxido de carbono, dióxido de enxofre, dióxido de nitrogênio e os hidrocarbonetos liberados pelos veículos, podem causar doenças em pessoas expostas a eles, principalmente doenças respiratórias. Dependendo do tempo de exposição e das condições meteorológicas desfavoráveis, podem causar até mortes.

Neste contexto, com muitos países enfrentando a crise global causada pela doença que se disseminou rapidamente, atingindo ricos e pobres, cultos ou nem tanto, conscientes ambientais ou não, surge a oportunidade de uma reflexão sobre o modelo de desenvolvimento adotado pela humanidade e das consequências deste em momentos em que a situação foge do controle.

Não se trata aqui de propor a mudança do sistema econômico global ou de interferir nos rumos políticos ou ideológicos dos países. Mas, sim de pensar na necessidade de uma análise profunda sobre os benefícios e prejuízos da forma com que a sociedade global escolheu viver.

Em consequência da poluição, a OMS diz que no planeta, ocorrem anualmente, 4,2 milhões de mortes prematuras. Ou seja, muitas mais do que as causadas pelo Covid-19 até o momento (88.982 até as 9h do dia 09/04/2020, de acordo com o jornal El País). Neste conjunto de mortes estão contabilizadas doenças cerebrovasculares, pulmonares, respiratórias, além de câncer de pulmão, traqueia e brônquios. O Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil informa que gastou com internações relacionadas a esses problemas no ano de 2018 mais de R$ 1,3 bilhão.

Ou seja, as perdas em função do modelo de “desenvolvimento” adotado em nível global, sobretudo em vidas de pessoas, superam anualmente em muito, pelo me-nos até o momento, as perdas decorrentes da pandemia do Covid-19. Há que se considerar ainda que a própria pandemia é reflexo deste modelo. Mas é a pandemia que ganha espaços, quase que exclusivos na mídia internacional atualmente.

A partir dessa afirmação alguém pode dizer que as perdas financeiras e a crise econômica consequentes da pandemia são das maiores da história. Sim. Porém, es-tas perdas estão ocorrendo em parte, mais em função do medo do vírus do que dos estragos que está causando na saúde das pessoas, e, principalmente do pânico espalhado por pessoas, grupos e países que potencializam os riscos para se beneficiar a curto, médio e longo prazo da situação, em termos financeiros e políticos.

Isto não quer dizer que as pessoas não devam, individualmente, tomar todos os cuidados de higiene e de postura social neste período, onde todos, correm sim, riscos. Mas, há que se considerar que estes cuidados deveriam ser constantes temporalmente e não somente em épocas de risco de contaminação mais severas. Até porque o coronavírus não é o único que pode causar problemas à saúde. Há um leque gigantesco de vírus, bactérias e outros micro-organismos que causam doenças e mortes de pessoas em número considerável pelo mundo afora, constantemente. A dengue tinha no mês de março de 2020 em Ourinhos, SP, mais de 330 casos, enquanto não haviam sido confirmados nenhum de Covid-19. E é uma doença com forte conteúdo ambiental, além de cultural, que também pode matar.

Estas breves reflexões indicam que nosso estilo de vida, a partir principalmente da ótica ambiental, está muito deteriorado. O surgimento de um vírus, em um país do lado oposto do planeta, que tem aspectos culturais bastante distintos dos brasileiros, é capaz de atingir nosso dia a dia e de colocar em risco pessoas de todo globo em pouco tempo. Indica que as pessoas estão cada vez mais conectadas entre si, mesmo que nem falem a mesma língua ou compartilhem dos mesmos valores e princípios. Mas, indica sobretudo os níveis alarmantes que este modelo de vida impacta no ambiente e nas pessoas.

Alguns dias de redução da atividade econômica levaram a mudanças significativas no ar, na água, nos solos e na fauna, tanto aquática quanto terrestre. Fazendo com que o céu ficasse mais azul em algumas regiões, águas mais límpidas em outras, fazendo com que peixes pu-dessem voltar a ser vistos e que pássaros pudessem ser ouvidos em grandes cidades. Ao mesmo tempo, pessoas cantaram em ja-nelas, famílias se reuniram novamente, pais puderam ficar mais tempo ­com os filhos e até participarem de suas tarefas escolares.

* Enquanto é obrigada a ficar em casa para evitar que uma tragédia se anuncie de maneira descontrolada, a população mundial é impelida a refletir sobre seus hábitos e sistemas de produção que comprometem o equilíbrio do meio ambiente *

Claro que a redução da atividade econômica e a suspensão de algumas atividades em países em quarentena também traz prejuízos financeiros e expõe de maneira explícita a desigualdade existente entre pessoas e as fraquezas do sistema, que não consegue distribuir a todos a riqueza que gera e que mantém vastos contingentes de pessoas à margem do “desenvolvimento” em condições precárias.

Claro que as disputas entre países, clareia relações e expõe a dependência que a globalização trouxe, sobretudo aos mais atrasados, pois em alguns casos, remédios não podem ser fabricados porque alguns dos componentes precisam ser importados de países localizados no outro lado do mundo. Da mesma maneira, equipamentos médicos e hospitalares precisam de peças que não são fabricadas no país onde são necessários. Situações como estas devem acender o alerta de governantes e cidadãos para os riscos do modelo, que coloca grandes nações sob a dependência de outras, de maneira muito mais séria do que aquelas dependências já tradicionais do petróleo e de alguns tipos de alimentos e de produtos industrializados.

Assim, a crise pela qual estamos passando além de causar transtornos, medo, riscos e prejuízos, também demonstra o quão o sistema de produção em massa e a busca de lucro extrema, têm nos colocado em cheque. Tanto em termos sociais, como econômicos e sobretudo ambientais.

Desta forma, espera-se que este período e todas suas consequências nos deixem pe-lo menos a lição de que não somos donos de verdade nem sequer de nossa própria vida, que no contexto atual, pode depender de hábitos alimentares ou culturais, de pessoas que jamais conheceremos pessoalmente ou de decisões tomadas por políticos que vivem do outro lado do mundo. E, portanto, precisamos voltar a viver de maneira mais sóbria e comprometida com nossos semelhantes e próxima do ambiente onde vivemos.

Precisamos aprender que a acumulação descontrolada de dinheiro, por apenas alguns (que muitas vezes sequer conhecem os países que deterioram), a partir da exploração extrema das águas, solos, biodiversidade, recursos minerais e vidas humanas, além de não trazer felicidade aos primeiros os coloca em risco constante e condena a população humana e o planeta Terra a um fim trágico que se aproxima, talvez em velocidade muito superior à pensada pelos nossos “líderes globais”.

Mas quero crer que esse destino ainda pode ser evitado. Basta que a população escolha líderes comprometidos com no-vos hábitos, posturas e princípios, e que essa possibilidade de escolha se espalhe por todos os povos da Terra. Assim, pode-remos nos voltar ao que está
próximo, é belo e saudável; e a valorizar a vida, o planeta, a natureza e as pessoas. Partindo daquelas próximas e em uma nova onda, alcançando todas as demais.

*engenheiro florestal, livres docente e professora da UNESP – Ourinhos, membro do movimento pelo Rio Pardo Vivo

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