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Edição 176 - Setembro/20

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Água: mais necessária e escassa do que nunca

* Edson Luís Piroli
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Nestes tempos de pandemia do Covid-19, a água, tão comum em nosso dia a dia, voltou a ser lembrada como base do cuidado e proteção que precisamos. Ter água de qualidade e em quantidade suficiente em nossas casas, tornou-se ainda mais vital, pois se não lavarmos mãos, rosto, corpo, roupas e todos os demais objetos, o risco de contaminação aumenta demais.

E não é só isso. A necessidade da água vai muito além dos cuidados de higiene e saúde. Ela tem um papel fundamental no organismo humano e precisa ser consumida constantemente, inclusive para combater doenças.

A água também é fundamental para a maioria das atividades econômicas. Da agropecuária às indústrias, passando pelo turismo e chegando à geração de energiam sem água a economia do país sofre pesados prejuízos, podendo entrar em colapso.

Por isso, no momento atual, quando as atividades produtivas estão bastante reduzidas em função da pandemia e, em momentos como os que virão nos próximos meses, em que o país precisará se recuperar e acelerar a produção em todos os setores da economia, a água em quantidade suficiente é ainda mais importante.

No entanto, a quantidade de chuvas em vastas extensões do território brasileiro, principalmente no centro-sul, tem ficado aquém do esperado. O Rio Uruguai, que faz a divisa dos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina e na sequência, do Brasil com a Argentina, está com o nível muito abaixo do normal para esta época do ano. O Rio Paraná, no trecho em que faz a divisa do Brasil com o Paraguai também está com volume bastante reduzido, o que compromete entre outras atividades, a geração de energia em Itaipu.

Na nossa região não é diferente. O Rio Paranapanema, que tem em seu leito 11 represamentos para geração de energia elétrica, também está com volume bem menor do que o esperado para esta época do ano, pois normalmente neste período os reservatórios estariam cheios por conta das chuvas de verão. No entanto, as chuvas não ocorreram conforme o esperado e a capacidade geradora poderá ser comprometida nos próximos meses, pois há uma redução natural das chuvas na área da bacia do Paranapanema nos meses de inverno.

A variação da distribuição das chuvas ao longo dos anos é um fenômeno mais ou menos normal. No entanto, as consequências desta variação têm sido observadas com maior frequência e intensidade nos últimos anos. O primeiro fator apontado como responsável por isto está relacionado às mudanças climáticas, observadas em várias regiões do planeta, em intensidades diferentes.

O segundo, e mais próximo de nós, diz respeito às mudanças na cobertura do solo.Como a substituição da vegetação natural por áreas agrícolas, pecuária, urbana e com infraestruturas, como estradas asfaltadas. Nesse cenário, as taxas de infiltração das águas das chuvas diminuíram muito, enquanto o escoamento superficial aumentou demais. Quando a água da chuva infiltra devidamente, devagar, ela abaste os lençóis freáticos, que ficam sob os rios, e na sequência volta à superfície através das nascentes, que formam os córregos, que sua vez formam os rios. A infiltração permite que os rios mantenham níveis seguros de água, mesmo em época de seca.

Conforme a agropecuária e as cidades foram se ampliando, na maioria das áreas sem os devidos cuidados com a manutenção das taxas de infiltração das águas das chuvas, a água acumulada nos lençóis freáticos tem diminuído. E consequentemente, a vazão das nascentes e o volume dos rios, também. Nas condições de solos impermeabilizados e compactados, a água das chuvas tende a escoar superficialmente em grandes volumes causando erosões, inundações e assoreamento de rios, indo embora para o mar rapidamente.

Por isso, neste momento em que uma pandemia exige que possamos contar com um volume elevado de água para nossas rotinas pessoais e para a retomada da economia, quando ela acontecer, temos um cenário muito preocupante, de baixa vazão nos rios e pequenos volumes de água nos reservatórios.

Isto nos leva à reflexão de que todos precisamos urgentemente reavaliar nossas relações com a natureza. Devemos recompor as florestas, principalmente das margens das nascentes e rios; proteger o solo, evitando sua compactação e a erosão; e, sobretudo aumentar a infiltração da água nos solos para que nossas nascentes possam se recuperar.

Essa tarefa cabe a todos. Desde o cidadão, que deve manter uma parte do quintal de sua casa permeável, coletar água das chuvas, reduzir o desperdício, evitar a contaminação e a poluição dos corpos d´água, até quem vive na área rural, que deve fazer terraços em nível, descompactar o solo, usá-lo de acordo com sua capacidade, manter a reserva legal e plantar as matas ciliares ao redor dos corpos d´água.

Cada um tomando consciência de seu papel, poderá auxiliar o poder público a criar políticas adequadas para gestão e proteção da natureza de maneira efetiva. E, quando isso acontecer, o risco de ficarmos sem água e sem energia reduzirá bastante.

* Engenheiro Florestal, Livre Docente, professor da Universidade Estadual Paulista.

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