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Edição 179 - Dezembro/20

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O melhor lugar do mundo é aqui e agora. Gilberto Gil

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Vista da casa do vizinho mais próximo de Adolfo Bueno, em São Francisco Xavier

Gonçalves é uma pequenina cidade turística do sul de Minas Gerais, de 4.350 habitantes segundo estimativa do IBGE (2019). É uma das atrações da Serra da Mantiqueira, onde o turismo já está bem estabelecido. São Francisco Xavier fica a 50 km de lá. É um distrito de São José dos Campos, onde vivem menos de 4 mil pessoas. Está a apenas 155km de São Paulo e a 57 km de São José dos Campos. Do outro lado de São José dos Campos, a 151 km de São São Francisco e a apenas 90km de São Paulo, está Piracaia, onde vivem menos de 30 mil habitantes.

É para essas cidades, com lindas paisagens de montanhas e paradisíacos lagos, cachoeiras e outras atrações turísticas, que nossos três entrevistados se destinaram quando decidiram mudar radicalmente de vida. Os três moravam em São Paulo, onde estavam bem estabelecidos profissionalmente. Nossa primeira pergunta para cada um deles foi: o que o fez mudar para um lugar tão pequeno? A resposta, foi a mesma: qualidade de vida.

Essa visão de mundo que coloca a convivência com a natureza, o sabor de frutas colhidas no fundo do quintal, a disponibilidade de tempo para fazer o que se bem quer, num ritmo amenizado pela inexistência de trânsito e de muitas pessoas, onde o simples substitui o sofisticado e onde o menos, literalmente, é mais, tem ganhado cada vez mais adeptos.

A história de nossos entrevistados têm outros pontos em comum. Nenhum deles estava insatisfeito com a profissão que exerciam na capital. Nem estavam em situação de dificuldade em atuar em seus respectivos mercados. O que reforça o valor que a simplicidade pode representar na vida de pessoas que desfrutam da agitada e atribulada vida de uma metrópole.

A primeira a aventurar-se pelo desconhecido e por um lugar estritamente pequeno foi Cecília Moraes Pereira. Dentista com clientes na capital, onde se estabeleceu depois de formada, ela viveu em várias cidades desde a infância em Santa Cruz do Rio Pardo, onde nasceu. Seu destino foi a paradisíaca Itacaré, no sul da Bahia, 1998, quando a cidade ainda era pouco conhecida e tinha menos de 18 mil habitantes. “Procurava um lugar pequeno e preferencialmente com praia”, nos conta. Instalada no litoral baiano, ela continuou a trabalhar como dentista até que, em 2006, achou que Itacaré estava “movimentada demais” e procurou um novo cenário, ainda menor e desta vez mais perto de São Paulo, da família e dos amigos: a pequenina Gonçalves, famoso centro turístico mineiro, quase na divisa com São Paulo. “Queria um lugar ainda menor, mais calmo e sossegado”, revela. Depois de três anos seguindo com a mesma profissão, a santa-cruzense encarou mais uma mudança a aventurou-se pela gastronomia. Inaugurou o “Sabores da Mantiqueira”, um bistrô que faz muito sucesso e aparece nos principais guias de gastronomia que retratam aquela região.

Sabores da Mantiqueira, o bistrô da Chef Cecília Moraes em Gonçalves

Cecília não viveu tudo isso sozinha. Assim como nossos outros entrevistados, a decisão de mudar radicalmente o estilo de vida e viver num pequeno centro, com muitas atividades rurais, como criar galinhas, cuidar da horta e cuidar da própria casa. com novos meios de subsistência, foi tomada junto com sua companheira de mais de 25 anos, Denise Terranova. “O momento mais desafiante dessa jornada toda foi quando viemos de Itacaré para Gonçalves e a Denise passou um tempo trabalhando em São Paulo, vindo para cá só nos finais de semana”, conta Cecília.

A chef Cecília Moraes e Denise Terranova, companheiras na aventura em se mudar para um lugar pequeno

 

Adolfo Bueno Junior, o Adolfinho, como é conhecido em Santa Cruz do Rio Pardo, onde nasceu, viveu em algumas cidades quando universitário até se estabelecer em São Paulo. É psicólogo, especializado na área de Recursos Humanos. Por 35 anos dedicou-se a essa profissão em grandes empresas, para as quais trabalhava nos últimos tempos como consultor. Com os filhos criados e adultos, ele decidiu passar parte do seu tempo em um lugar muito mais pacato. “Estava cansado da muvuca de São Paulo, de me deslocar de um lo-cal para outro, em cliente, muito tempo no trânsito. Eu queria um local mais tranquilo que fosse mais agradável sossegado e também uma melhor qualidade de vida. Porque eu entendo que quem tem padrão de vida não necessariamente tem qualidade de vida. Mas quem tem qualidade, tem padrão”, filosofa.

A escolhida de Adolfo foi São Francisco Xavier, conhecida como São Xico. “Viajava sempre para Gonçalves e nunca tinha ido a São Francisco Xavier”, explica ele, que decidiu finalmente conhecer o pequeno distrito de São José dos Campos.

Na época, em 2016, ele estava casado e, assim como a esposa, encantou-se pelo lugar. “A ideia era ficar cinco dias do mês em São Francisco Xavier e 25 em São Paulo, mas logo a paixão foi tão avassaladora que a decidimos nos mudar para São Francisco Xavier”, diz Adolfo. O casal se desligou das atividades na capital pau-lista e mudou-se para São Xico, que ele carinhosamente chama de “aldeia”.

Alugaram uma chácara e logo compraram um grande terreno para construir uma casa própria, mas depois de um ano e meio, o casamento acabou. Ele permaneceu em São Xico, onde vive em meio à natureza e na companhia de seus animais de estimação.

Adolfo expões obras inspiradas na aldeia

 

Apesar de ser convidado para atuar como palestrante e realizar treinamentos em sua área profissional, algo que ele fez voluntariamente quando se estabeleceu na aldeia, Adolfo hoje vive de uma renda própria e se dedica a atividades artísticas, como pintura e escultura. Seus trabalhos registram claramente o momento bucólico que está vivendo e têm lhe rendido elogios e ganhos. Suas telas de pontilhismo, por exemplo, mereceram uma exposição numa das belas pousadas da região, tendo lhe rendido boas vendas. “Aqui considero que eu tenho um ócio produtivo, pensando em Domenico Demasi, que fala muito sobre isso. Resgatei muitas coisas. Voltei a desenhar, a pintar, comecei a trabalhar com marcenaria e caminho pelos riachos em busca de uma de um galho de árvore chamado cajarana, das quais faço esculturas dando nova vida a esses galhos”, revela Adolfo.

Sem pressão financeira – Investir numa nova atividade num lugar peque-no, certamente tem como uma interessante vantagem o custo de vida muito menos oneroso em relação aos altos gastos da capital paulista, uma das mais caras do mundo para se viver.

A casa de Lívia Salles em Piracaia. Tempo para tudo

 

Nossa terceira entrevistada, Lívia Salles, está podendo se dedicar com muito mais tranquilidade às duas atividades bastante diversas de sua vida profissional: a produção cultural, alinhada com artistas do circuito paulistano, e criação cosmética, fundamentada na produção artesanal e mais natural possível. “Continuo minhas atividades de produtora cultural, porém, por conta da pandemia, com trabalhos bem reduzidos, estou com mais tempo para me dedicar à saboaria de cosméticos naturais que tenho desde o final do ano passado”, conta Lívia, referindo-se à a Porã Saboaria & Entreposto.

A escolha de Lívia foi Piracaia, para onde se mudou com uma amiga motivada pelo fato de ser perto da capital, ter amigos que já moram lá e pelas águas de lagos, rios e cachoeiras que o lugar oferece. Sobre o que a fez a sair de São Paulo, ela explica: “o ritmo, o ar, o verde, poder intercalar períodos de trabalho com um banho de represa ou cachoeira, as relações mais humanas com as pessoas…a lista aqui pode ser imensa” , garante.

Uma decisão bem pensada – Seria um engano concluir que nossos entrevistados agiram por impulso. Cada a um a seu modo, todos agiram de modo consciente e com metas bastante estabelecidas. Além da qualidade de vida, cada se um deles se mantém ativo e assumiu novas tarefas cotidianas, muitas delas inesperadas. “Nunca me imaginei morando na zona rural. Também não pensei que iria resgatar minha veia artística, como a poesia e as artes plásticas, de uma forma tão intensa como agora. Tenho caminhado muito mais do que caminhei em toda a minha vida e me tornei mais contemplativo, afinal, é impossível não ser com tanta exuberância”, avalia Adolfo que também se viu às voltas com uma Jaracuçu à porta da casa. “Era final de tarde, estava regando as minhas plantas e tinha uma cobra de aproximadamente um metro enrolada. Fiquei desesperado e fui pegar uma enxada. Quando voltei com a enxada, ela já não estava mais lá, o que me desesperou ainda mais porque eu não sabia para onde ela ido. Mas ela nunca mais voltou, graças a Deus”, conta.

Para Cecília, além da produção de hortas e criação de galinhas, das quais ela só consome os ovos, pois são batizadas e descendentes da Turma da Mafalda, famosa até nas redes sociais, a maior novidade foi a gastronomia, que a levou inclusive a abandonar a odontologia, profissão que escolheu desde a infância e sempre a deixou bastante realizada. “É preciso que se diga que isto só foi possível graças ao meu saudoso cunhado Zito Gibran, chef de cozinha e conterrâneo de Santa Cruz do Rio Pardo. Foi ele que nos ajudou a decidir o primeiro cardápio do Sabores da Mantiqueira e nos ensinou tudo que possibilitou mais esta aventura”, reconhece Cecília. “Olhando agora, parece inacreditável. Mas é bem real”, afirma a chef do bistrô que aparece com Certificado de Referência do TripAdvisor.

Cecília colhe o que planta em sua horta para servir no Sabores da Mantiqueira. E aproveita ovos da Turma da Mafalda

 

Para Lívia, que acaba de se mudar, o que mais encanta na nova vida é a oportunidade de estar fazendo tantas coisas que gosta ao mesmo tempo e com tempo.

Família e amigos – Quando pergunto do que nossos entrevistados mais sentem falta, a família e os amigos aparece em primeiro lugar, seguidos, claro, da programação cultural que São Paulo oferece. Porém, o que não falta é disposição para seus familiares e amigos os visitarem em seus novos e aconchegantes endereços, todos, é bom dizer, localizados nas áreas rurais dessas pequenas localidades, pois nenhum deles mora no centro urbano.

Eles também ressaltam a importância do apoio familiar em suas novas escolhas. “Meus filhos adoraram minha mudança e acham que estou mais tranquilo. Eles vêm sempre me visitar”, conta Adolfo. “Todos acham mesmo que tomei a decisão certa, principalmente em relação ao aumento na qualidade de vida e redução de custos”, afirma Lívia, que tem um filho jovem morando na capital e os pais em Campinas. “Tudo isso só foi e continua sendo possível porque temos um imenso apoio de nossas famílias, que sempre se fizeram muito presentes e nos ajudaram demais nos momentos em que problemas mais sérios aconteceram. Digo isso sobre todos os pontos de vista, inclusive financeiro, num ou em outro momento mais caótico”, reconhece Cecília.

Distantes e conectados – O fato de estarem afastados da vida urbana e imersos na natureza não significa, no entanto que estão desconectados de tudo e de todos. Muito pelo contrário. A internet que os mantém em constante contato com tudo e todos que ficaram na grande cidade. E foi através, dela, inclusive, que toda essa conversa foi possível.

Quem pensa em mudar radicalmente de vida, deve ler atentamente as dicas de Adolfo: “pesquise e faça um planejamento. Pontue os prós e os contras. Se você vive com alguém, converse bastante sobre esse desejo de mudança, sobre esse novo projeto de vida. Registre os objetivos que deseja conquistar e os recursos necessários para chegar lá. Visite o local, entre em contato com os moradores, pesquise detalhadamente sobre a cidade. Tem que se gostar de novidades, porque que muitas vezes será bem diferente de sua realidade atual”, diz Adolfo.

Eles também avisam que há que se incluir nessa lista, uma boa dose de desprendimento, pois a vida simples implica abrir mão de muitos supérfluos. E os ganhos muitas vezes são bem modestos.

Escolha convicta – Pergunto aos entrevistados se em algum momento se arrependeram ou pensam em voltar para São Paulo e a resposta, de diferentes formas, é a mesma: se depender deles, continuam vivendo esse novo estilo onde ser é efetivamente mais importante do que ter e onde o ter é focado na simplicidade.

Para quem vive em uma pequena cidade, como os leitores das cidades onde o 360 circula todos os meses, essas experiências comprovam que há muito a agradecer e a vivenciar quando se mora no interior. É mesmo muito bom viver aqui e agora.

Info: conheça os empreendimentos de nossos entrevistados.

Lívia Salles: dilettoproducoes.com.br

porasaboaria.iluria.com

Cecília Moraes: saboresdamantiqueira.com.br

Adolfo Bueno:

instagram.com/adolfobuenojr/

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