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Edição 177 - Outubro/20

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Agronegócio

A agricultura, entre pais e filhos

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Historicamente, a produção agrícola se mantém atrelada ao trabalho familiar. Uma tradição que passa de pai para filhos, que herdam a terra e também uma profissão. Apesar de muitos abandonarem o campo da agricultura e da pecuária, há jovens que, mesmo podendo escolher uma outra profissão ou atividade profissional,optam por trabalhar com seus pais no agronegócio.

Mateus Biazoti Ferrari é um deles. Aos 21 anos, o estudante de agronomia da ESALQ, unidade de agronomia da USP situada em Piracicaba, trabalha desde os 15 anos com o pai, o agro-empresário Rogério Ferrari. “Somos descendentes de italianos que vieram para o Brasil para trabalhar e produzir. Sou a quarta geração de produtores brasileiros. É um legado dos meus avôs e do meu pai, de muito amor à terra, à produção”, afirma Mateus, que já responde pela condução da Romalure, empresa que concentra uma grande e diversificada produção de grãos.

O veterinário Pedro Henrique Rocha Pegorer, tem 31 anos e há oito trabalha com seu pai. “Assim que me formei, em 2012, trabalhei por quatro anos com pecuária para o meu pai e em 2017 ingressei na empresa da família, exercendo um cargo administrativo”, conta Pedro, referindo-se à Cerealista Solimã, uma das maiores em toda a região, com unidades em Santa Cruz do Rio Pardo, Piraju e Cerqueira César.

Com uma experiência mais recente, Letícia Zaia Maximiano de Souza, estudou Administração de Empresas na GV (Fundação Getúlio Vargas), cujo diploma abre portas em qualquer empresa da grande São Paulo. Depois de algumas experiências na capital, Letícia retornou para Santa Cruz do Rio Pardo e está trabalhando com o pai, Vanderlei de Souza, na administração das fazendas da Brasília Alimentos e da fazenda de seu avô, o agro-empresário Hélio Zaia. “Aconteceu naturalmente. Eu quis voltar para Santa Cruz e comecei a trabalhar com meu pai”, informa a jovem de 25 anos, que há 10 meses tem se dividido entre a cidade e viagens ao Mato Grosso, ao lado do pai, cuidando do negócio familiar.

Liberdade de escolha – Nenhum desses profissionais do agronegócio sentiu-se pressionado a escolher o caminho dos pais. “Em casa meus pais nunca interferiram na escolha da vida profissional dos filhos”, garante Pedro, que também faz muito sucesso como cantor sertanejo da dupla Pedro e Yuri. “Desde criança tive muita afinidade com o campo e tenho paixão por gado. Sempre que podia, meu pai me levava para o sítio e eu participava das lidas com gado”, lembra. “Apesar de não terem interferido nas minhas escolhas, acredito que herdei esse gosto pelo campo do meu pai”, acredita Pedro que foi incentivado pelo meu pai, o agro-empresário Antonio Roberto Pegorer, a fazer um MBA em gestão empresarial.

Letícia nos conta que não pensava em seguir os passos do pai. “Minha formação não é diretamente ligada ao agro-negócio, então não teve uma influência do meu pai. Segui as minhas características de personalidade. Comecei a trabalhar em São Paulo, mas não estava feliz. Então vim para Santa Cruz e comecei a trabalhar com meu pai na administração das fazendas”, explica.

Vantagens e desvantagens – Naturalmente, procuro saber como é trabalhar sob a liderança do pai. “Como tudo na vida, trabalhar com os pais tem ônus e bônus. As vantagens são a liberdade para trocar ideias e também algumas flexibilidades na forma de trabalho. Por outro lado, traz muita responsabilidade, pois ele conquistaram tudo por mérito deles. Então a carga de responsabilidade é bem grande para levar adiante a história deles, porque foi tudo feito com muito carinho, muito esforço, muito suor”, avalia Mateus, que fala no plural porque a mãe, Renata Ferrari, também atua na empresa.

Para Pedro, é ao mesmo tempo desafiador e motivador. “Nesses anos to-dos tenho aprendido muito, todos os dias, acredito ser essa a grande vantagem. Poder produzir e progredir com o exemplo de homem e ser humano que sempre tive. A responsabilidade é grande. Minha geração tem o dever de progredir nos negócios que meu pai e meus tios realizaram ao longo dos anos. Essa é minha missão,” avalia.

Letícia explica que sua experiência ainda é recente, mas está satisfeita. “Estou gostando bastante. Acho que a principal vantagem é a abertura que tenho com ele e a facilidade para trocar ideias, independente do horário. Somos bem parecidos e conseguimos acrescentar bastante um ao outro. O principal desafio é não ultrapassar o limite, independente da divergência, respeitar o papel dele, porque ele está tocando as fazendas há muitos anos. Então procuro ser cuidadosa nas minhas opiniões, respeitar a autoridade dele de pai e de chefe”, pondera.

Nível de exigência – Ser chefiado pelo próprio nem sempre significa mais cobranças, mas há uma grande chance disso acontecer. “Se um funcionário faz oito coisas certas e duas erradas, vai ganhar elogios, do tipo, ele acertou mais do que errou. Agora o filho tem que ser 10/10. Acho que pela liberdade e por ser um negócio nosso”, diverte-se Mateus.

Pedro concorda. “A cobrança com certeza é em dobro. E é assim que tem que ser. Isso me fez amadurecer muito nos negócios e como pessoa”, acredita. Letícia diz que o pai é mais tolerante com ela. “Ele é exigente, cobra o que precisa ser feito, mas acho que me poupa mais, talvez por ser um ambiente majoritariamente masculino,”. afirma.

Herdando conhecimento – Nossos entrevistados são conscientes do quanto aprendem com seus pais. “Entre tantos ensinamentos, eu destacaria fazer a coisa certa, não prejudicar ninguém e também o lado técnico, pois meu pai nunca teve medo de trazer a tecnologia para a lavoura. Ele não tem medo de ser pioneiro. É um legado dele: “sai na frente, porque quem chega primeiro bebe água limpa”, conta Mateus.

Letícia também está aprendendo muito com seu pai. “Como não tenho formação do agronegócio estou aprendendo tudo com ele. A minha formação me deu uma ideia mais racional das coisas, de custos, produtividade. E quando se fala em pecuária, em funcionários que vivem no campo, cuidando do patrimônio de uma família inteira, tem um jeito diferente de lidar”, revela. Segundo ela, o pai também a ensina a ter cautelosa nos negócios. “Sou um pouco mais impulsiva e ele tem me ensinado que tem que ir aos poucos, não dar passos maior do que a perna e ter mais certeza antes de agir”, diz.

Pedro diz que o maior aprendizado é a persistência. “Acreditar e correr atrás do que se almeja com muita fé, trabalho, honestidade e dedicação.”

Contribuição da nova geração – Os filhos de pais tão experientes e capazes não se sentem acua-dos em, dar sua contribuição ao trabalho paterno, mostrando que, se antigamente o diálogo era algo difícil entre gerações, hoje é uma prática comum, os mais jovens possam efetivamente contribuir para o negócio familiar. “Meu pai é um cara muito aberto”, diz Mateus, que avaliar que o planejamento e controle dos números sejam a sua mais evidente contribuição ao negócio. “Meu pai é um cara que não se atém muito a planejar e calcular. Ele é arrojado, vai fazendo as coisas de modo mais espontâneo e tudo sai bem perfeito, mas eu gosto mais de medir o desempenho. Levei esse conceito para a fazenda porque medir é importante para tomar decisões. Permite vermos se podemos economizar, se podemos dar um passo à frente, ajuda a avaliar o desempenho de tudo”, avalia Mateus

Letícia avalia sua ajuda. “Acho que minha maior contribuição é introduzir o máximo possível de tecnologia para simplificar o gerenciamento das fazendas, propor ferramentas que facilitem essa gestão. Estou conseguindo agregar bastante nesse aspecto. A reação do meu pai às minhas ideias é meio misto. Da mesma forma que ele gosta de aprender coisas novas, ele é um pouco conservador. É aberto, desde que você prove que sua ideia é melhor do que o jeito tradicional de fazer as coisas. Então preciso mostrar na prática como as mudanças vão facilitar a gestão do negócio”, explica a jovem.

Resolvendo conflitos – Toda relação profissional, tem momentos em que não se chega a um consenso e cabe ao chefe dar a última palavra. Quisemos saber como é ter que acatar a decisão do próprio pai no ambiente de trabalho. “Acho que de certa forma é um pouco mais difícil, porque todo mundo tem medo do chefe. Mas sendo seu pai, você sabe que não vai ser mandado em-bora, então você enfrenta mais”, avalia Mateus.

Pedro reconhece que os conflitos são inevitáveis. “Algumas vezes há divergência de pensamentos, porém, no final, sempre chegamos a um consenso”, garante. Ele explica que toda inovação ou mudança gera um estresse, e tem que se respeitar o tempo de adaptação para tudo. “É preciso muita conversa. Tem que colocar tudo na balança para chegar à melhor decisão para a empresa”, diz, acrescentando que quando não há um consenso, a última palavra é do seu pai. “Sempre respeitei muito isso.”

Letícia acredita que seu pai é mais tolerante por ser sua filha. “Acho que ele me poupa mais. E para mim, é mais fácil acatar as decisões dele porque além do negócio, eu tenho um respeito por ele. É alguém que conheço bem e admiro”, avalia.

Talento a ser herdado – É notória a consciência da nova geração a respeito da capacidade do patriarca para gerir o agronegócio. Questionados sobre quais talentos que gostariam de ter herdado de seus pais, a resposta é pronta e rápida. “Eu queria ter a visão para negócios que ele tem. Sempre olhando para o futuro, sempre pensando em prosperar”, diz Pedro Pegorer.

Mateus Ferrari destaca o espírito de luta do pai. “Ele tem muitos talentos, mas o mais queria ter é manter a disposição mesmo diante das adversidades, encarar tudo com tranquilidade, alegria e facilidade. E também o fato de ele ser muito racional, resolver tudo através da razão, não se deixar abalar pelo emocional”, diz.

Letícia gostaria de ter herdar a determinação e eficiência do pai, além da curiosidade que o estimula a estar estar sempre buscando aprender coisas novas sobre tudo.

Entre pai e filho – Para concluir nossa conversa, pergunto se trabalhar subordinado ao pai interfere na relação familiar. E todos avaliam que, ao contrário do que se possa imaginar, ajuda bastante. “Quando há respeito mútuo, não há problema algum”, garante Pedro.

Mateus acredita que a relação com o pai é ainda melhor. “Acho que ajuda muito. Na hora de sentar e tomar uma cerveja temos mais assuntos. Além disso o convívio permite nos conhecermos melhor”, afirma Mateus.

Apesar de ter uma experiência ainda recente, Letícia já tem uma opinião a respeito. “Por enquanto acho que tem ajudado. A gente se dá bem, somos muito parecidos de um jeito positivo. Acho que trabalhar juntos tem nos aproximado ainda mais”, conclui.

Meu pai ama tudo que faz e acorda cedo com vontade de sair e trabalhar. Em qualquer circunstância, nunca vi meu pai desanimado. Ele está sempre disposto a fazer aquilo que ama.” Mateus, sobre Rogério
“Meu pai é um homem batalhador e visionário, que nunca desistiu dos seus ideais e de seus sonhos, sempre com muita humildade.” Pedro sobre Antonio
“Meu pai sempre está em busca de informação para se atualizar a respeito do negócio. Está sempre dis- posto a aprender e se informar. Acho isso muito legal.” Letícia, sobre Vanderlei
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