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Edição 176 - Setembro/20

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O desafio de poupar ganhando pouco em meio a tantas ofertas de consumo

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A pandemia nos trouxe de volta a importância de ter uma reserva financeira. Poupar é um velha meta que saiu de cena porque nem sempre temos dinheiro sobrando e também pelas infinitas ofertas de consumo com as quais nos deparamos mesmo sem sair de casa, através das redes sociais que permanecem ativas dia e noite na nossa vida. Quem perdeu o emprego, teve seu negócio fechado ou teve a renda mensal afetada, certamente sentiu falta de ter de onde tirar dinheiro para não se sentir com a corda no pescoço neste período tão imprevisível quanto demorado, afinal, lá se vão mais de quatro meses.

Para saber por que gastamos em vez de poupar, entrevistei dois especialistas: Alex Agostini, professor universitário e economista-chefe da Austin Rating, empresa que analisa riscos de créditos*, e Vera Rita de Mello Ferreira, psicanalista e doutora em Psicologia Econômica, criadora do Vértice – Instituto de Psicologia Econômica e Ciências Comportamentais, considerada a maior conhecedora de Economia de Consumo do país.

Com diferentes abordagens, os dois especialistas foram unânimes em dizer que para o brasileiro é mesmo muito desafiador guardar dinheiro. Por várias razões. A primeira, porque temos uma distribuição de renda muito desigual, que coloca a grande maioria de milhões de pessoas que vivem no país ocupadas em conseguir sobreviver com uma renda insuficiente para suas necessidades básicas.

Diante do argumento de que há pessoas que mesmo ganhando menos de salário mínimo, se endividam na compra de um iPhone último modelo, entra em cena a questão emocional. Tanto o economista quanto a doutora em comportamento de consumo destacam que, quando consegue ter uma renda extra, o brasileiro procura se recompensar da sua condição de desigualdade, comprando algo que ilusoriamente o coloque no mesmo nível das pessoas endinheiradas.

“Todas as nossas decisões são emocionais. A emoção é mais poderosa do que a lógica, do que a ponderação. Porque ela está presente há muito mais tempo do que a razão ao longo do desenvolvimento da espécie humana”, explica Vera. “O homem era movido às necessidades de sobrevivência. Ele agia para obter alimento, guardar energia e se proteger das ameaças da natureza e dos predadores. Esses são impulsos naturais do homem. E ainda temos esses impulsos extremamente fortes. A gente não quer gastar energia, por isso temos a inércia, a procrastinação. A gente não quer perder nada. Nossa aversão à perda é muito grande. Inclusive isso nos faz engordar. E há um foco no presente. A gente quer um alívio à pressão, à tensão, o mais rápido possível”, esclarece Vera.

A longevidade do homem atual também aparece como fator no nosso comportamento de consumo, segundo Vera. “Até a metade do século passado, a expectativa de vida do brasileiro era de 45 anos. Eram poucos os que se aposentavam. Hoje gira em torno de 73 anos. Então, a visão de médio e longo prazo teve que entrar no radar do brasileiro, mas ainda não está incorporada”, afirma.

Paralelamente a esse cenário emocional, temos também que considera também a grande mudança no mercado financeiro e de capitais. Fomos ensinados que para juntar dinheiro para a casa própria, o carro, os estudos, as viagens, entre outros sonhos que nos trazem realizações perenes, devíamos poupar. E já faz décadas que a caderneta de poupança caiu em desuso. Hoje, quando se pensa em juntar dinheiro, a palavra de ordem investir. E isso nos assusta, porque é preciso conhecer as opções e ingressar num universo de informações às quais não estamos acostumados. Também tendemos a pensar que investir requer ter mui-to dinheiro sobrando. E isso é um erro, como explica o economista da Austin. “São muitas alternativas de investimento. E muitas delas podem ser feitas a partir de R$ 100,00”, diz Agostini.

Ele explica, no entanto que antes de pensar onde investir o dinheiro, é preciso saber para que se quer poupar. “Investir só para ver o dinheiro aumentar não deve ser o seu objetivo, pois aí você está tendo uma relação de obsessão com o dinheiro. Ele existe para nos proporcionar confortos e realização de sonhos”, afirma o economista.

Definido o objetivo, há que se avaliar qual o valor e por quanto tempo você terá que economizar dinheiro para investir. Esse talvez seja o maior desafio, pois, com uma renda mensal baixa, será preciso conter o impulso de compra, algo hoje muito mais fácil não só por conta da nossa natureza, mas graças aos crediários e aos canais online que nos enchem de ofertas diárias. “Somos movidos pelo que chamamos de desejo. Que é essa sensação permanente de falta, de inquietude que nos move, que é muito importante porque nos faz sair da cama todos os dias”, diz Vera Rita Ferreira.

O problema, segundo ela, é não se dar conta de dois aspectos: “O primeiro é que o desejo é inconsciente. A gente não sabe o que deseja. A gente sabe o que está a fim, acha que quer algo, mas não tem muita certeza. O segundo ponto é que o desejo nunca será plenamente satisfeito. A pessoa sempre vai voltar a ter desejos. É isso o que nos mantém vivos”, diz a doutora.

Nesse sentido, o consumo funciona como uma maneira aparentemente fácil de nos satisfazer. “Comprar é uma maneira ilusoriamente simples de satisfazer nossos desejos. É simples porque todo mundo sabe fazer isso. Você vai lá, escolhe, compra, paga. E é ilusório porque logo você vai estar pronto para uma nova busca. Então sempre estaremos preparados para comprar”, explica Vera.

Segundo ela, aliado a isso, existe o marketing, a ferramenta de negócios que trabalha para despertar o desejo de compra no consumidor. “Vivemos numa sociedade de consumo e o marketing vem nos dizer o que nem sabemos que queremos (e se queremos). Somos induzidos a comprar. Então não é algo que depende apenas da nossa força de vontade, de autocontrole, disciplina e determinação das pessoas. Muitas vezes elas têm tudo isso, mas acabam comprando. Porque o que faz com que a pessoa consuma menos é se expor menos às ofertas de consumo”, ensina Vera.

Diante desse cenário, onde consumir é algo fácil e investir parece ser tão complicado, elencamos uma lista de medidas para ajudar você a juntar dinheiro com vistas a realizar desejos mais produtivos, que possam trazer meios de você melhorar seu padrão de vida, seja comprando um carro, uma casa própria, podendo estudar e qualificar-se para obter melhores ganhos, ter uma aposentadoria mais tranquila, ou estar preparado para um imprevisto, como a pandemia.

Como evitar o consumo:

Agora que você sabe que o impulso de comprar faz parte da nossa natureza, como forma de satisfazer facilmente nossos desejos, procure refletir um pouco mais antes de fazer qualquer compra. Lembre-se que o valor dessa compra imediata pode ser investido para comprar algo que você deseja ainda mais e requer mais dinheiro.

: Antes de ir ao supermercado, veja quais produtos você comprou e acabaram não sendo consumidos. Faça uma lista mais condizente com seus hábitos e evite ir com fome. É uma armadilha natural para voltar com o carrinho cheio de guloseimas que você não planejava comprar.

: Evite se expor às campanhas de marketing e facilidades de compra. Descadastre seu email de sites de vendas. E se comprar deles, não autorize envio de ofertas.

: Pare de seguir contas nas redes sociais que vendem produtos. Expor-se a ofertas de vendas enquanto checa as postagens dos amigos pode facilmente nos levar a comprar sem necessidade e até mesmo sem vontade.

: Quando realmente quiser comprar algo, espere alguns dias. Além de surgirem ofertas mais em conta, talvez você já tenha deixado de desejar aquela compra.

: Evite deixar o cartão de crédito cadastrado em sites de vendas, onde em apenas um clic você faz a compra.

: Desabilite aplicativos de sites de compra do celular.

: Assim como a internet registra suas pesquisas de consumo, enviando sucessivamente ofertas daquele produto, o mesmo tende a ocorrer se você pesquisar sobre alternativas de investimento. Isso vai ajudar você a ser abordado por alternativas de poupar em vez de gastar.

: Quando decidir gastar em uma festa, por exemplo, pondere se o valor a ser gasto poderia proporcionar uma outra satisfação que possa contribuir para melhorar seu padrão de vida de maneira mais consistente: uma viagem de intercâmbio, um curso, um bem mais durável, uma entrada num imóvel. Mudar o objeto do seu desejo pode ser um exercício para não gastar com o que lhe deixa com dívidas e rapidamente insatisfeita. Essa regra vale também para gastos com festas infantis, que podem, por exemplo, ser divididos em duas partes: para uma festa mais simples e criativa e outra para um plano de previdência privada para seu filho, por exemplo.

Como juntar dinheiro:

Lembre-se que para a maioria das pessoas, poupar não é apenas um hábito. Primeiro porque depende da condição financeira de cada um. Há, no entanto, casos de pessoas que conseguem poupar mesmo ganhando pouco. Então, com esforço, você pode chegar lá. Ou seja: se comprar é algo natural, poupar não é. Ter essa consciência ajuda bastante. E como todo desafio, quando consegui-mos alcançar, além do dinheiro, teremos a satisfação de termos superado nossa dificuldade natural. Essa vitória vai alimentar o seu inconsciente também.

Agostini destaca que que o primeiro passo é definir um objetivo para poupar. É a partir daí que você vai poder avaliar qual o melhor investimento. As opções são muitas. As pessoas hoje investem em fundos de investimentos, que se apresentam em diversas modalidades, com riscos proporcionais a mais ou menos ganhos. Há também previdência privada. Mas tudo vai depender para quê você quer o dinheiro.

O terceiro passo e colocar no papel quanto você vai precisar economizar para investir, por quanto tempo precisará investir para alcançar seu objetivo e quais os riscos você corre de perder dinheiro.

A liquidez também aparece aqui: há investimentos que são de longo prazo. Ou seja, numa situação imprevista, você pode perder os ganhos caso decida resgatar o valor investido antes do prazo previsto em contrato.

Também a credibilidade do agente financeiro que vai administrar o seu dinheiro é muito importante. Isso tudo, para quem não é do ramo e pouco entende de números, pode gerar muita incerteza. E é aí que reside uma outra dica preciosa do nosso entrevistado: informe-se antes de investir. E informação, hoje em dia está muito acessível.

Agostini destaca que mesmo sem sair de casa é possível ter acesso a informações de qualidade, inclusive levar suas dúvidas a especialistas, como ocorre em canais do Youtube e nas redes sociais. Isso não quer dizer que você deva delegar o seu investimento a quem não conhece.

Uma consulta à agência do banco também é uma medida a ser tomada. Atualmente, os bancos mantêm agentes de investimento para esclarecer todas as dúvidas dos clientes. “Lembre-se que os profissionais que es- tão lá para dar orientação têm metas a cumprir. Então leia todo o material das alternativas de investimento que são oferecidas. Veja quais os riscos, quanto tempo o dinheiro tem que ficar aplicado, qual a segurança que a instituição financeira que vai operar seu dinheiro oferece”, alerta Agostini, destacando que mesmo pessoas que se informam profundamente antes de investir correm o risco de ter perdas.

Agora, se você não quer correr risco algum, opte por fundos de renda fixa, que você já sabe quanto vai render, para atingir objetivos de curto e médio prazos. E caso esteja pensando, por exemplo na sua aposentadoria ou na faculdade do filho que ainda está na primeira infância, considere a Previdência Privada.

O assunto é complexo para apenas esta edição. Aproveite para nos enviar suas perguntas: 360@jornal360.com

Nossas fontes:

Vera Rita de Mello Ferreira é psicanalista a doutora em psicologia econômica, autoria de vários livros sobre o assunto. Pioneira no Brasil, dirige o Vertice PSI Instituto, ministra cursos e colabora com os principais jornais do país, mantendo ainda canais on line onde você pode aprender muito sobre consumo e economia.

https://valorinveste.globo.com/blogs/vera-rita-de-mello-ferreira/

http://www.verticepsi.com.br

https://youtu.be/sm3MWW5z_k0

Alex Agostini é economista-chefe da Austin Rating, que vem a seuma agência independente que classifica a capacidade de empresas, governos e países de pagar suas dívidas. Essa classificação serve de referência para as instituições financeiras avaliarem o risco de emprestar dinheiro para empresas e governos. . Professor universitário, ele é uma fonte segura para jornalistas do setor de economia e finanças. Muito acessível, ele também pode ser encontrado em canais on line. Pesquise seu nome e vai encontrar muita coisa.

https://www.austin.com.br

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