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Edição 181 - Fevereiro/21

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Agronegócio

Irrigação requer uso responsável da água

Cada vez mais comuns nas grandes lavouras, os pivôs de irrigação aumentam a produtividade, mas devem ser usados de maneira racional e sustentável. Veja como a Romalure, maior produtora de grãos de Santa Cruz do Rio Pardo,  utiliza o sistema com eficiência. Entrevista exclusiva com Mateus Biazoti Ferrari, diretor da empresa e estudante de Agronomia

Matheus Biazoti Ferrari, estudante de Agronomia da ESALQ (USP de Piracicaba) e gestor da Romalure, produtora de grãos de Santa Cruz do Rio Pardo, em frente ao açude e ao campo de soja cultivada sobre palha de trigo e irrigada segundo normas  do DAEE. Uso consciente da água em benefício do agronegócio e do meio ambiente.

360:  Qual é o tamanho da sua área produtiva em Santa Cruz do Rio Pardo e região?

MATEUS BIAZOTI FERRARI: Hoje, aqui em Santa Cruz, a gente cultiva grãos. Soja, milho, trigo e feijão são as nossas quatro principais culturas, em uma área de aproximadamente 2.500 hectares, sendo 500 hectares irrigado.

360: Tudo isso no município de Santa Cruz ou você pega também outros municípios?

MATEUS: Em Santa Cruz, são cerca de 2.200 hectares. Também temos cultivo em Águas de Santa Bárbara e Óleo.

360: Onde que está tua área irrigada?

MATEUS: Só em Santa Cruz.

360: Eu queria que você me falasse, comparando, por que você tem irrigação em uma área e em outra não.

MATEUS: A irrigação, do ponto de vista de uso ou não uso, se refere, basicamente, a duas questões. Primeiro, a viabilidade econômica da área; depois, a viabilidade do recurso hídrico. Então, tem área onde o recurso hídrico não comporta o uso da irrigação e tem área onde a viabilidade econômica, devido à distância da energia chegar até o local, se torna inviável esse recurso. Esses dois pontos que limitam as áreas irrigadas.

360: Você tem uma diferença de resultado produtivo das áreas irrigadas e não irrigadas?

MATEUS: Sim. O potencial produtivo das áreas irrigadas é, na maioria das vezes, maior.

360: Qual a porcentagem?

MATEUS: Acho que, nas culturas de verão, em torno de 10% a 15%. Mas nas culturas de inverno, onde, geralmente, falta chuva, aí a gente fala de uns 60%, é um valor maior.

360: Como se implanta um sistema de irrigação no campo?

MATEUS: O sistema de irrigação no campo se instala da seguinte forma: Primeiro, a gente define a área e vai atrás de um engenheiro florestal para que ele obtenha as licenças necessárias e avalie se o recurso hídrico do local é apropriado para tal. A partir dessa avaliação, a gente vai para a questão de energia elétrica. Então, o pessoal da concessionária de energia elétrica da região também faz um estudo de viabilidade elétrica da região. Tendo esses dois “OKs’”, vem a terceira parte que é o dimensionamento da irrigação propriamente dito. Dimensionamos a área que ela vai conseguir abranger e, enfim, a parte de orçamento. Depois disso tudo feito, a gente implanta a irrigação de fato.

360: Tem que ter uma outorga do DAE?

MATEUS: É. Hoje, a gente precisa de uma outorga do DAE, Departamento de Água e Energia Elétrica, que controla o uso de recursos hídricos do Estado de São Paulo.

360: E como é que funciona isso? Por exemplo, ali na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, a gente vê um grande reservatório, tem, também, perto do trevo, uma tubulação e mais para cima tem uma área grande, na sua fazenda mesmo. Como aquilo foi construído, qual o volume de água que você capta e de onde vem essa água?

MATEUS: Então. O volume de água, de cabeça, não vou saber te falar, tenho que estudar e fazer a conta, mas os açudes que ali existem são da época da Fazenda Solange. Quando meu pai adquiriu a propriedade já vieram com os açudes, o que a gente fez foi reformá-los porque teve um açude que estava com risco de romper. A gente esgotou o açude de baixo em virtude da obra que estava sendo feita no de cima, que foi feito em cima do barro mole, que se fala, porque, para você fazer um açude, tem que fazer a base dele com rachão depois erguer com terra para ficar firme e não correr o risco de partir. Na época da Fazenda Solange, acho que não tinha essas técnicas. Então, ele tinha vários pontos de infiltração. Aí a gente limpou, colocou as pedras por baixo para firmar.

360: Como você repõe a água dos açudes no lençol freático e qual o controle que você tem disso dentro do seu negócio?

MATEUS: Hoje, as nossas ligações são feitas em cima de um balanço hídrico agronômico. A gente trabalha com uma empresa de consultoria. Eles pegam os dados meteorológicos, tem uma estação meteorológica na fazenda, em cima do estudo feito para aquela cultura implantada, por exemplo, o milho. Para cada dia de evolução do milho, quantos litros de água ele vai consumir em função das condições de tempo real do local. E vale em função de temperatura, velocidade do vento, umidade do ar, enfim, N fatores que são colocados numa fórmula para calcular a demanda hídrica. É o que eu falo, tudo culmina no desenvolvimento sustentável. E quais são as duas variáveis para esse balanço hídrico ser eficiente? Primeiro, eu não vou colocar água ali que não seja absorvida pela cultura, não vou jogar água fora. E segundo ponto, eu vou ser eficiente no uso da energia elétrica. Quer dizer, se eu jogasse água por jogar, eu ia ter um consumo de energia maior. São esses dois pontos que a gente se atenta para não exceder.

360: A reposição se dá pelo plantio direto?

MATEUS:O plantio direto chegou na nossa região nos anos 2000. Na década de 80, começou no Brasil, na região Ponta Grossa e na região de Londrina. Por esses dois senhores, que estão vivos até hoje e têm cerca de 90 anos de idade, Franke Dijkstra e Herbert Bartz. O plantio direto consiste na implantação da cultura seguinte em cima da palhada, no revolvimento do solo da cultura anterior. E o que isso garante de benefício para o produto e para o meio ambiente? O fato é a questão ambiental, a gente usa a água de forma mais eficiente. Então aquela palha que revolve o solo não deixa o sol incidir diretamente sobre o solo, assim a evaporação é menor. Além disso, onde você tem palha, as atividades biológicas e microbiológicas ficam ativas porque tem alimento, tem carbono orgânico ali para elas comerem. Ou seja, a palhada evita a evaporação e promove a diminuição da temperatura do solo, o que favorece o desenvolvimento dos micro-organismos que nutrem o solo. Hoje, com um teste de laboratório de análises biológicas comparando um grama de terra em solo de plantio direto e um grama de terra em solo de plantio convencional, você vê que ali a quantidade de micro-organismos no solo de plantio direto é muito maior. E esses micro-organismos são vida!

360: Segundo o professor Pirolli, o plantio direto também permite que a água escorra para o centro e retorne para o lençol freático porque não tem compactação, é isso?

MATEUS: Isso. Em áreas de plantio direto, o volume de raiz por metro cúbico de solo é muito maior também. Então, as raízes funcionam como micro túbulos que ligam a superfície ao lençol freático. O solo é um filtro e quando você joga uma água, por mais oportunidade que ela tenha, ela vai chegar ao lençol freático em condição de consumo de novo. Então, vamos pensar assim, quando a gente joga água, irriga ou quando a própria chuva chega na superfície do solo e se você tem esses micro túbulos que não deixam criar uma camada compactada entre a superfície do solo e o solo essa água vai percorrer e chegar ao lençol freático de novo.

360: Desses 2500 hectares, que você tem, quanto é plantio convencional e quanto é plantio direto?

MATEUS: Hoje, 100% é de plantio direto. É uma evolução que a gente foi implantando. Eu costumo dizer que o desenvolvimento sustentável é muito, mas muito, economicamente viável no longo prazo. Você evita o efeito rebote, como a gente chama na agricultura, que é quando as pessoas aplicam determinado produto visando uma praga que está ali no campo hoje, mas esquecem que se aplicar esse produto determinada época do ano estão matando um inimigo natural que pode combater essa praga naturalmente amanhã. Então esse uso racional tanto de defensivos quanto do plantio direto pode ser, no curto prazo, algo oneroso. A planta é um ser vivo que interage com os micro-organismos do solo e quanto mais micro-organismos, mais produtividade. O solo do plantio tradicional não armazena água porque não tem uma rede de raízes no solo, não tem a palhada segurando a umidade. Então em cinco, seis anos de plantio direto, os custos da lavoura já se paga e sobra dinheiro no bolso. Então, costumo dizer que a gente tem que apostar nessa questão.

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Mateus Ferrari nos mostra a área de reflorestamento em torno do ribeirão que passa pela Fazenda N. Sra. Aparecida e abastece seus açudes e o sistema de plantio.  direto com manejo do solo usando trigo, que produz um herbicida natural e protege o solo  retendo também a água que é filtrada e devolvida ao aquífero.  “Mesmo quando o açude está com pouca água mantemos o mesmo nível de vazão determinado pelos órgãos competentes”, garante o agro-empresário que está à frente da Romalure

360: E, progressivamente, vai diminuindo o uso de herbicida, também?

MATEUS: Isso. No longo prazo, é possível porque a gente tem que racionalizar os processos. Tem plantas que, ao serem cultivadas, têm efeito alelopático, que não deixam a daninha surgir. Então, a primeira coisa a fazer é identificar qual daninha é o problema na sua região. Depois, qual a cultura que tem efeito alelopático sobre ela. Um exemplo é o trigo, que a gente planta. A nossa região não planta muito trigo.

360: E por que você planta o trigo?

MATEUS: Porque as raízes do trigo desprendem uma substância que são naturalmente herbicidas. Então, se em determinada área aparece uma planta daninha que não cresce por causa dessa substância, você planta o trigo para controlar essa planta daninha.

360: E controla?

MATEUS: Controla.

360: E ainda você vende o trigo?

MATEUS: E ainda vendo o trigo. Então, o processo tem que ser racionalizado, a gente tem que  identificar qual é o problema em determinada área. Tem uma frase de um engenheiro agrônomo, que já morreu, Dirceu Gassen, que eu gosto muito, fala assim: “O sucesso na agricultura é em função do conhecimento aplicado por hectare.” Acho que tudo se resume a isso. Então vamos botar tudo na mesa: quais as opções que a gente tem, os problemas com qual daninha, irrigação ou não irrigação, onde a gente pode fazer cada coisa, que área tem problema de escorrimento superficial; precisa fazer criogenia, não precisa…

360: O que são os degraus nas plantações?

MATEUS: São curvas de nível. No Paraná, que é um Estado que tem uma declividade um pouco maior, é até lei ter curva de nível. Aqui em São Paulo, não é lei, mas é uma questão de conservação de solo. No Rio Pardo, as terras que margeiam o rio têm uma textura vermelha argilosa que quando chovia escorria essa terra toda dentro do rio. Então, quais foram os dois caminhos que os agricultores encontraram para evitar isso? Porque quando causa essa erosão toda, aquela camada fértil do solo também se vai, então todo aquele adubo, aquele fertilizante vai para o rio, você tem um prejuízo econômico porque você está deixando de aproveitar aquele fertilizante. E para o rio tem um problema ambiental gigantesco. Então, como resolver esse problema? Primeira prática: curva de nível. Que são feitas de acordo com cada área, cada declividade e são projetadas para quebrar a velocidade da água. E o plantio direto também, porque a palha sobre o solo evita que a água percorra o solo muito rápido criando canais de preferência.

360: Conhecendo a região, todo mundo está aderindo ao plantio direto? Como é isso?

MATEUS: As culturas de grãos, propriamente ditas, acho que, hoje, 90% das áreas cultivadas de grãos são adeptas do plantio direto. Outras culturas, eu já não tenho esse conhecimento da porcentagem que é utilizado.

360: Outro aspecto importante da questão dos nossos recursos hídricos, as matas que alimentam nossos recursos hídricos. Como é essa situação da Reserva Legal de mata nativa na sua propriedade?

MATEUS: Dentro da Reserva Legal, os 20% exigidos por lei, a gente tem a parte da mata nativa e a parte de APP, Área de Preservação Permanente, que se enquadra em regiões onde a preservação é obrigatória, que são as beiras de rio, propriamente dita, e, também, os morros;

360: Por isso que a gente vê, por aí, nomeio de plantações,  um tufo de árvores, que eu chamo de oásis? Aquilo é um APP?

MATEUS: Isso, aquilo é um APP, também. Eu não tinha muito esse conhecimento, passei a ter em virtude de algumas aulas que tive de Reserva Legal. Hoje, as nossas Áreas de Pre-servação Permanente são todas demarcadas nesse sentido. Você deve ter visto, ali, na Fazenda N. Sra. Aparecida, não na parte que é açude, na parte que é rio, tem uma mata nativa que a gente plantou.

360: Você faz reflorestamento também?

MATEUS: Nas regiões de APP, sim. Na área que é curso da água, está tudo reflorestado. Já nas áreas de açude, em virtude até da dificuldade de entrar com máquinas, é difícil fazer o reflorestamento.

360:  Qual a relação do seu negócio com a CETESB, Companhia Ambiental do Estado de São Paulo, que é responsável pelo controle, fiscalização, monitoramento e licenciamento de atividades geradoras de poluição com a preocupação fundamental de preservar e recuperar a qualidade das águas, do ar e do nosso solo.?

MATEUS: Na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, a gente teve um processo de compensação com a CETESB, faz uns quatro anos, mais ou menos. A gente tinha cerca de 12 árvores isoladas que tivemos que reflorestar. Para cada árvore arrancada, a gente teve que plantar 20 árvores. Esse reflorestamento está em frente ao Posto Kafé.

360:  Órgãos governamentais fazem a fiscalização? Como é aferido? Você tem que prestar contas? É computado pela CETESB?

MATEUS: Tudo é computado. Temos que apresentar fotos, tem um engenheiro florestal responsável que fez o procedimento.

360:  Vamos supor que daqui a 2 ou 3 anos tenhamos metade do volume de água disponível ou que você precise de mais recursos para extrair a água. O que a diminuição do volume considerável de água pode impactar no seu negócio?

MATEUS: Essa é uma pergunta bem triste e difícil de responder.

360: Pode se tornar realidade, se a gente não agir. Santa Cruz é a única cidade da região onde há um movimento de pessoas conscientes sobre a importância do rio, nenhuma outra fez o que a fizemos nos últimos anos. Então, vamos ter que agir, porque senão a gente vai sim ter um problema sério no abastecimento de água porque, além da barragem de Santa bárbara, estão autorizadas uma barragem em Iaras e um reservatório de água em Botucatu. E segundo,  os estudos do professor Pirolli, que é um mestre no assunto, pelas suas características, o rio Pardo pode não vai aguentar tanta interferência. Então, pergunto: o que aconteceria na agricultura local se começasse a faltar água?

MATEUS: É difícil mensurar o prejuízo econômico para a cidade, mas travaria todas as esferas da agricultura. Tem muita gente que irriga suas hortas, estufas. Pequenos produtores como o senhor que vende alface, tomate na feira. E os grandes produtores também seriam impactados. A maior parte do PIB da nossa cidade vem dos alimentos. Sem água não tem alimento. Água é vida.