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Edição 183 - Abril/21

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Agronegócio

A agrofloresta se expande pelo mundo a partir de Timburi

Reconhecida como a alternativa mais eficaz para a preservação da produtividade agrícola e pecuária do planeta, a agrofloresta, sistema produtivo que resgata a produção diversificada em uma mesma área, assume grande destaque mundial, com direito a projetos de grande porte, um deles liderado pelo Príncipe Charles, do Reino Unido.

Mas é um Timburi que funciona o “hub”, ou empresa que concentra e dispersa o maior conhecimento prático e científico no assunto.  É da pequena cidade paulista, que a  Pretaterra está realizado projetos. Um deles, lançado no último dia 19, pretende mudar o cenário de produção cafeeira local, com a introdução do sistema de agrofloresta com apoio financeiro de um banco internacional.

 À frente da Pretaterra, estão Paula Costa e Valter Ziantoni, engenheiros florestais com larga experiência no assunto, considerados por especialistas os mais qualificados profissionais para expandir a agrofloresta pelo mundo através de seus sistemas já testados no Brasil e no exterior. De fato, nosso primeiro contato com o eles aconteceu em janeiro de 2020, quando se apresentaram no Fru.to – Diálogos do Alimento. Muita coisa aconteceu de lá até agora. Veja

360: Qual a formação de vocês e como surgiu a Pretaterra?

Paula Costa: Sou formada em engenharia florestal pela ESALQ/USP de Piracicaba e em biologia pela UNESP/Ribeirão Claro. Trabalhei com recuperação de áreas degradadas e restauração de área florestal.  Trabalhei em diversos contextos, especialmente na floresta Amazônica, no norte do Mato Grosso, na região de Manaus. Também trabalhei no interior de São Paulo, em alguns assentamentos pequenos, com agricultura familiar, com comunidades indígenas. Depois dessa experiência em campo, próxima dos agricultores e tendo mais conhecimento prático, atuei na Fazenda da Toca, que na época era um dos maiores empreendimentos florestais do Brasil e do mundo, onde conheci o Valter Ziantoni. Lá, nosso desafio era implementar os sistemas agroflorestais em larga escala, fazer com que fossem bem planejados, com clareza da viabilidade econômica e da técnica operacional. Após essa experiência, criamos a Pretaterra justamente para disseminar esse sistema em outros contextos, com outros agricultores, e assim espalhar a agrofloresta pelo mundo.

Valter Ziantoni: Sou engenheiro florestal formado pela UFPR, mestre em agrofloresta, pela Bangor University, no Reino Unido, tenho especialização em gerenciamento pela FGV e mais um monte de coisa. Minha experiência no florestal tem mais de 15 anos, trabalhando cerca de sete anos na Amazônia (brasileira, peruana e boliviana). Trabalhei alguns anos na África pela UNDP, pelas Nações Unidas no Laos, pela FAO na Turquia. E na Europa, sempre com sistemas agroflorestais. Minha especialidade é a aplicação desse conhecimento prático para construir sistemas integrados que respeitam e entendem os meios de vida das pessoas que estão no campo. Encontrei com a Paula na Fazenda da Toca, onde  desenhamos e modelamos economicamente praticamente todos os sistemas. A partir disso, resolvemos criar a Pretaterra, com o apoio da Fazenda da Toca, de diversos outros clientes que angariamos e parceiros. Desde então, já são praticamente 4 anos de trajetória com projetos no Brasil e no mundo todo.

360:  O que é a Pretaterra?

Valter: A Pretaterra oferece uma metodologia de implantação da agrofloresta considerando todos os aspecto desse sistema produtivo. Logo de início, assinamos um grande contrato com a WRI Brasil, instituto de pesquisa que promove a proteção do meio ambiente. Ficamos quase um ano e meio na Amazônia, onde implantamos 20 unidades de sistemas agroflorestais, que continuam funcionando e sendo monitoradas por nós.

Desde então, já implantamos mais de 100 sistemas agroflorestais com pequenos produtores rurais em diversos estados do Brasil: Rio Grande do Sul, São Paulo, Paraná, Bahia, Paraíba, Amazonas, Pará, Santa Catarina. Em Minas Gerais foram diversos trabalhos com café agroflorestal na Serra da Mantiqueira.

360: Como explicar o sistema agroflorestal?

Paula:loresta é um sistema produtivo, uma maneira de plantar e de colher onde há biodiversidade. Ou seja inclui várias culturas, inclusive árvores. Trazemos árvores para a paisagem agrícola ou produção agrícola para dentro da floresta. E isso faz toda a diferença porque a presença de árvores na paisagem é o que traz tudo o que a gente chama de serviço ecossistêmico: proteção de solo, conservação e regulação do ciclo da água, manutenção do microclima, refúgio para a fauna e para polinizadores. Além de uma ciclagem de nutrientes profunda. Porque as árvores têm raízes muito profundas que captam nutrientes em camadas do solo que culturas agrícolas não são capazes de alcançar. Os nutrientes chegam às folhas que, quando caem no solo e se decompõem, devolvem esses nutrientes para a superfície do solo, são liberados e disponibilizados para os cultivos agrícolas. Essa utilização do uso dos nutrientes do solo faz toda a diferença para resiliência do sistema produtivo, que é a capacidade desse sistema reagir em situações desfavoráveis, como a estiagem, a geada, as pragas e outros fatores adversos.

360:  O que é essa resiliência na agricultura?

Paula: A resiliência é a capacidade de reagir ao adverso e esse é um aspecto muito importante da agrofloresta. Isso se dá pela biodiversidade desse sistema de produção, que fortalece e o torna mais resistente. A resiliência também aparece no negócio, pois o produtor passa a ter uma grande diversidade de produtos para comercializar e também para  consumo próprio, familiar. Ou seja, ele se fortalece porque não fica dependendo de apenas um produto agrícola.

360:  Então o produtor sai ganhando?

Paula: Sim. A agricultura tem que ser encarada como um negócio. Colocar todos os ovos em uma mesma cesta é muito arriscado. A diversificação da produção é muito bem-vinda para a resiliência do agricultor.

360:  Por que tantos resistem ao sistema?

 Paula:  Por ser um sistema produtivo biodiverso, a agrofloresta tem a sua complexidade. Os agricultores ainda estão presos ao pensamento da monucultura. Todo conhecimento dele, o mercado dele está focado para só uma espécie. Inserir muitas espécies em um ecossistema traz alguns desafios. Por isso, nos dedicamos a planejar os sistemas agroflorestais de uma maneira esquematizada, com conceitos que trazemos como fundamentais para fazer com que o sistema de fato seja viável.

360: Essa ruptura do sistema de trabalho convencional para migrar para o agroflorestal custa quanto para o produtor?

Valter: Agrofloresta é para todos. Você  aproveita a mesma área para produzir muito mais alimentos porque faz maneo de forma tridimensional, como se fosse um cubo e não uma área. Quando se fala de 1 hectare, por exemplo, a gente pensa nos andares dentro desse espaço e, normalmente, se consegue produzir 60% a mais e não apenas de um mesmo produto. Então, se nesse 1 hectare de plantação de café for implantada a agrofloresta, teremos um pouco menos de café, mas na somatória de todos os produtos teremos uma produção muito maior. Então é economicamente viável para o pequeno, para o médio e para o grande produtor.

360: Pode falar como seria com cada tipo de produtor, pequeno, médio e grande?

 Valter: Para o grande produtor a agrofloresta é muito viável porque, cedo ou tarde, ele vai ter que adotar esse tipo de produção. Muitos vão ser mais relutantes porque detêm poder aquisitivo, crédito no banco, maior extensão de terra, possibilidade de hipoteca, maquinário, trabalhadores, então eles estão vivendo o mesmo status quo por muito tempo. Mas, hoje, a gente vive um momento de mudança climática. Quem não migrar para um sistema produtivo agroflorestal não vai ter resiliência climática dentro do seu sistema. Além da pressão do consumidor que está cada vez mais esclarecido e busca produtos agroflorestais, regenerativos, agroecológicos, de práticas diferenciadas que trazem um valor nutricional maior. Sabe aquele produto da roça que não recebe agrotóxico, que tem muito mais vitamina, como a gente costuma dizer? Isso é chamado de valor nutricional.

Há também a pressão  das mudanças climáticas. Quando têm árvores no sistema, você protege as plantas e, principalmente, o solo que é o maior bem produtivo. Porque se salinizar, se o solo perder a nutrição, não será mais possível produzir e nem arrendar para cana. Muitos já estão começando, estão na linha de frente. A Pretaterra está implantando um piloto de 1200 hectares no Mato Grosso para expandir para 23 mil hectares de gado, transformando tudo em agrofloresta.

Quanto ao pequeno produtor, é quem mais se beneficia. O pequeno, no jargão, a gente chama de agronegocinho porque ele copia o agronegócio e faz uma produção de commoditie. O produtor tem 2, 3, 5 hectares e planta milho, feijão, arroz, às vezes até soja. Dependendo da área, faz estufa e planta pimentão, pepino. Tudo com altíssima quantidade de veneno e com um custo altíssimo. Daí, ele compete com o latifundiário que tem produção em escala, que tem as colhedeiras, as maiores plantadeiras. É óbvio que ele vai viver endividado ou se matar de trabalhar, mas sem nunca conseguir aumentar a renda, sem competir em nenhum mercado porque o custo de produção dele é muito maior que o de quem produz em escala. Quando esse produtor adota um sistema agroflorestal ele diversifica. Primeiro, ele protege e garante a resiliência do sistema dele porque coloca árvores. Segundo, passa a ter soberania alimentar. Com a diversidade de produtos que, se a coisa ficar feia, tem comida suficiente e diversa porque ninguém come soja ou só milho. Tendo diversidade, ele vive bem. A diversidade o torna capaz de competir no mercado. Se o preço de um commoditie cai demais, ele tem outro porque não arrancou todos os pés de café para plantar só soja, tem algumas linhas de milho, dentro do café, tem uma árvore produzindo determinada castanha, tem linhas de banana, tem galinha, porco… tem toda uma produção integrada que para vender independente da flutuação de mercado. Outro aspecto muito importante é a agregação de valor. Um produto agroflorestal traz a possibilidade de vender com valor agregado, o que dá condição de ganhar muito mais pela produção.

O médio produtor está no meio disso. Tem amplos benefícios, tanto os do pequeno quanto os do grande. Assim como as dificuldades, de mudar a forma de pensar. É difícil falar para o produtor que a vida inteira criou gado e que o avô, tataravô vem derrubando floresta para ter alguma terra, e você explicar que agora ele vai ter que plantar árvore.É uma mudança de paradigma, que tem que ser feita de uma maneira muito robusta, mostrando com números.

Vale a pena destacar que todos os sistemas que a Pretaterra faz são respaldados com modelagens financeiras e considerando valores conservadores de preço. Não colocando sistemas de preço, colocando valores altos de combustível, de máquina, depreciação, de custo de mão de obra, para justamente mostrar como esse sistema se comporta com números. Normalmente, a gente altera se for necessário e cria um sistema que de fato funcione, economicamente falando.

 

360: Quanto tempo demora para migrar para o sistema agroflorestal? E o que o produtor, que investiu  faz com seus equipamentos? Como aplicar numa grande extensão de cana, que usa máquinas gigantes. Ou numa estufa de melão?

Paula: Agrofloresta é um termo genérico porque existem mil possibilidades, mil formatos e conformações para a implementação um sistema agroflorestal. Não tem espécie, espaçamento ou arranjo espacial predeterminado. O que vai determinar é o agricultor, o contexto e, principalmente, os recursos já existentes. A maneira como ele já faz a agricultura é importante porque o sistema tem que ser aderente, tem que fazer sentido para aquele agricultor, para dar certo.

Por exemplo, quando falamos de um pequeno agricultor, que é pouco capitalizado e tem uma área pequena, é  possível fazer uma maneira um mais biodiversa, mais complexa, já que é aquele agricultor menor que conhece cada cantinho do sistema dele, que vai manejar e vai cuidar. Agora, quando é um  sistema que precisa ser mecanizado e incluir algumas espécies como a cana, que você mencionou, os arranjos e espaçamentos das árvores vai ser determinado pela largura das máquinas. A entrelinha vai ser larga o suficiente para a máquina passar e transitar, não tem problemas nenhum.

O sistema é adaptável a todos. No caso do melão, a ideia é que a agrofloresta faça o papel da estufa e que a biodiversidade promova um sistema sem o ataque tão intensivo de pragas e doenças.

O que tem que ficar claro é que a viabilidade econômica vai ser proporcional ao planejamento que o agricultor fizer. Então, nada impede que ele faça um sistema que tenha, por exemplo só duas espécies. Eu tenho linhas de eucaliptos a cada 35 metros intercalados com linhas de cana, sem problema algum. Simplesmente dobrou o número de espécies no cultivo e incluiu árvores na paisagem. Isso já é um grande avanço.

Tem todo um gradiente de possibilidades, desde um sistema mais simplificado até um mais complexo, com 50 espécies. Não tem que insistir em dizer que só é agrofloresta quando tem mais de 30 espécies porque não é assim. A gente tem que ter árvores na paisagem, biodiversidade e tem que ser gradual para que os agricultores consigam transformar essa maneira de pensar.

360: Como os produtores podem ter acesso a esses sistemas da Pretaterra? 

Valter: Existem várias formas. A Pretaterra tem muito material publicado, é possível replicar o que já está feito. Nós fazemos um trabalho muito forte em redes sociais. No nosso canal do YouTube há vários cursos completos. Se precisar de um financiamento, é importante buscar uma consultoria onde a gente oferecemos toda a modelagem financeira, inclusive de carbono, se a ideia for a venda de créditos de carbono no futuro.

Também oferecemos uma plataforma para pequenos proprietários que não podem se comprometer com a consultoria , o Academy, uma frente da Pretaterra que se dedica a cursos de formação e mentorias. Nós juntamos grupos de pessoas que têm o mesmo objetivo, como por exemplo o café, e nós damos mentorias. Conversamos por uma série de reuniões online, remotas, onde ajudamos a traçar uma linha, nortear como funciona o sistema. Outra frente são os cursos, já gravados, que pode fazer por módulos. Nós temos os módulos Pioneer, Intermediate e Climax. E tem o primeiro curso de todos que é Seeds (sementes), totalmente de graça, que está no nosso site. É só se cadastrar, fazer os cursos que, ao concluí-los, recebe uma certificação.

Uma outra forma de fazer a consultoria, sendo pequeno, é fazê-la remota. Principalmente agora em tempos de Covid-19.  O proprietário envia as análises de solo, envia o kmz, a delimitação da área pelo Google Earth, diversos vídeos e fotos do solo, da área. Com essas análises, a gente faz toda uma revisão demográfica de produção e fazemos uma série de conversas, tudo remoto.

Agora, é claro que temos diversas fases. Desde a fase de imersão e diagnóstico até a fase de planejamento, modelagem financeira e depois a fase de campo de fato, onde a gente vai presencialmente e implanta. Nossa equipe pode implantar 100%, na área que for, do tamanho que for, pequeno médio ou grande. Ou capacitando as equipes locais. Ou simplesmente acompanhando nos primeiros dias para garantir que o processo seja seguido como planejado.

De qualquer forma, se o proprietário tiver sua própria equipe ou quiser contratar uma outra equipe para implantar, ele terá condições de conduzir inteiramente a conversão à agrofloresta, sem a necessidade de nos estarmos presentes.

 360:  Vocês estão lançando um projeto para  cafeicultores de Timburi. Do que se trata?

Paula: Levamos dois anos em busca de apoio para construir um projeto agroflorestal em Timburi. A ideia é implementar 100 hectares de agrofloresta em um ano e meio com agricultores familiares, recuperando APPs (áreas de proteção permanente), plantar muitas árvores, diversificar os cafezais e fortalecer a agricultura familiar da região.

Valter: Serão cerca de 30 agricultores, queremos fazer café agroflorestal e agregar valor a essa produção. Vamos buscar mercado e mudar o cenário de Timburi, vamos fazer um Timburi novo!

360:  Vocês estão envolvidos em um projeto do príncipe Charles, da Inglaterra?

Valter: Sim. Fomos convidados pelo Príncipe Charles para liderar a frente agroflorestal da Circular Bioeconomy Alliance (Aliança pela Bioeconomia Circular), formada no final desse ano. Em janeiro, teremos a primeira reunião com o Príncipe,  quando vamos definir as áreas de ação prioritárias na América Latina.

O 360 trará mais informações das atividades da Pretaterra nas próximas edições.

Info: Veja onde obter mais dados e acessar os cursos da Pretaterra: www.pretaterra.com

www.youtube.com/Pretaterra

www.Pretaterra.com/academy