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Edição 182 - Março/21

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Por que afinal, temos que salvar o Rio Pardo

O estudioso do rio Pardo, Edson Pirolli, conhecimento acadêmico e expedicionário

Passados mais de 10 anos de ativismo em defesa do rio Pardo, que nasce em Pardinho/SP e deságua no rio Paranapanema,  em Salto Grande/SP,  o maior estudioso no tema,  Prof. Dr. Edson Pirolli,  avalia a sua situação e capacidade  de resistir às interferências que vem sofrendo há anos.

360: Por que o professor decidiu estudar tão a fundo o rio Pardo?

Prof. Pirolli: O principal aspecto que me levou a estudar o rio Pardo foi a importância de suas águas para o abastecimento de par-te considerável da população urbana de Ourinhos e Santa Cruz do Rio Pardo, além de várias outras cidades, como Pardinho, onde estão suas primeiras nascentes. Também o fato de que o rio tem grande importância para as atividades econômicas realizadas na área de sua bacia, fornecendo água para dessedentação de animais, irrigação e até para o desenvolvimento do turismo, com destaque para as cachoeiras localizadas em vários de seus afluentes, como por exemplo nos municípios de Botucatu e Águas de Santa Bárbara. E ainda pelo fato de ser um rio com águas de qualidade mui-to boa e que por isso merecem atenção e cuidados para que não sejam degradadas e continuem atendendo as pessoas e suas atividades para sempre.

360: Quais suas principais descobertas?

Prof. Pirolli:  Há várias. Destaco a identificação de 3.281 nascentes na área da bacia hidrográfica do rio Pardo, o que é um número considerável e que chama a atenção. A área da bacia (que capta água das chuvas para o rio Pardo) é de 480.312 hectares (como se fossem mais de 480 mil campos de futebol). O ponto mais alto da bacia está localizado a 1.003m de altitude com relação ao nível do mar. Além do rio e de seus afluentes, há na bacia do Pardo 993 represas, sendo 16 com área alagada superior a 20 hectares. Outro dado interessante é que devido às nascentes, córregos, rios e represas, existem 29.742 hectares de Áreas de Preservação Permanente (áreas que devem ser mantidas com vegetação nativa) e, destas, 7.513 não têm a proteção de floresta, o que potencializa riscos às águas do rio Pardo. Estes locais precisam ser trabalhados visando a proteção integral das águas da bacia.

360: Muito se fala de rios e árvores. Afinal, quem depende de quem?

Prof. Pirolli:  Os rios em nossa região e esta-do são dependentes das árvores, principalmente das florestas. Isso porque as florestas permitem grandes taxas de infiltração da água das chuvas. Essa água se desloca lentamente dentro do solo até chegar nas nascentes, que formam os córregos e depois os rios. Além disso, as florestas localizadas nas margens dos rios protegem as águas da entrada de sedimentos, resíduos e contaminantes. Por isso são chamadas de matas cili-

ares. Porque fazem o mesmo papel de proteção que os cílios fazem para nossos olhos.

360: Por que se fala tanto em salvar o rio Pardo?

Prof. Pirolli:   Porque o rio Pardo é fundamental para a população da região por abastecer com suas águas pessoas, criações e plantações, além de atividades industriais e comerciais. Se o rio for contaminado, modificado ou ter seu volume de água reduzi-do, a comunidade regional sofrerá prejuízos consideráveis.

360: O que precisa ser feito para que não tenhamos problemas de abastecimento de água na região?

Prof. Pirolli: É muito importante que o rio Pardo e toda sua bacia sejam manejados de maneira a proteger a vegetação nativa, a se fazer a recuperação das matas ciliares onde inexistem, a proteger o solo com terraços em nível e com adoção de sistemas de plantio direto nas áreas agrícolas e de pecuária. Esse conjunto de técnicas aumenta a infiltração de água no solo, o que recarrega o lençol freático e abastece as nascentes. Além disso, essas técnicas reduzem a erosão o que diminui a entrada de sedimentos nos rios e consequentemente reduz os processos de assoreamento nestes. Outro fator crucial é não poluir e contaminar as águas. De nada adianta ter um rio do porte do Par-do passando pelas propriedades e cidades se suas águas não puderem ser utilizadas.

360: Quais os efeitos que o reservatório que vem sendo construído em Botucatu poderá causar para o rio e para o abaste-cimento das cidades por onde ele passa?

Prof. Pirolli:  Os principais riscos durante o período da construção do reservatório es-tão relacionados à contaminação das águas, ao assoreamento do leito do rio à jusante (abaixo) da obra e à retenção excessiva de água para enchimento do reservatório, o que pode comprometer o volume de água do rio, trazendo prejuízos, que podem ser graves para o seu ecossistema.

360: O que poderá ser feito para compensar essa obra e salvar o rio?

Prof. Pirolli: A obra precisa ser fiscalizada e monitorada continuamente para evitar os problemas. Além disso, após o enchimento da represa a vazão do rio deve ser mantida ininterruptamente. Não pode haver retenção de água para manter o reservatório cheio, em detrimento da manutenção do fluxo do rio. O ecossistema sobrevive de água corrente. Assim, esta jamais pode faltar no leito do rio após o barramento. Da mesma forma, pessoas e atividades econômicas à jusante (abaixo) da represa de Botucatu precisam da água corrente. Então o grande desafio será, em períodos de secas mais prolongadas, atender a demanda de Botucatu, sem prejudicar a população dos demais municípios ao longo do rio.

360: Quais os efeitos que a PCH (Pequena Central Hidrelétrica) construída no rio, em Águas de Santa Bárbara, está causando no rio e para o abastecimento das cidades por onde ele passa depois?

Prof. Pirolli:  Os principais efeitos observados têm sido a redução do volume de água no leito do rio Pardo. Durante o período de enchimento da represa, o aumento dos sedimentos em suspensão e o assoreamento de partes do leito do rio abaixo da represa. O aumento dos sedimentos em suspensão aumenta os custos do tratamento da água para seus diversos usos, principalmente doméstico. Uma consequência grave deste tipo de obra é o seccionamento do ecossistema do rio. Muitas espécies aquáticas precisam se deslocar ao longo do rio para se alimentarem, se protegerem e reproduzir. A presença de uma barragem impede esse deslocamento. Devemos destacar ainda que o corte raso da mata ciliar do rio Pardo na área em que a represa foi construída seccionou o corredor ecológico que permitia que várias espécies da fauna regional se deslocassem de maneira segura. Além disso a retirada da proteção da mata ciliar expôs as águas do rio à entrada de sedimentos e contaminantes. Isso sem contar a perda do abrigo para a macro e micro fauna (de sapos a abelhas, por exemplo) que habitava o lo-cal ou se deslocava pelo mesmo e a perda de espécies epífitas como bromélias e orquídeas, por exemplo, que foram destruídas com o corte raso da vegetação.

360: O que poderá ser feito para compensar essa PCH  e salvar o rio?

Prof. Pirolli:  É necessário que haja fiscalização contínua com relação à retenção e libe-ração de água, principalmente em períodos de estiagem, para evitar que a geração de energia seja prioritária em detrimento da manutenção do rio e de seu ecossistema. Além disso, deve haver a recomposição imediata da mata ciliar em toda extensão do reservatório visando a proteção das águas e o restabelecimento do corredor ecológico e do habitar para a fauna silvestre da região. Para minimizar o impacto sobre as espécies aquáticas, a escada de peixes indicada no parecer da CETESB deve estar operacional ininterruptamente. Importante destacar ainda o atendimento imediato do compromisso da concessionária para com os proprietários rurais da área atingida tanto no tocante à indenização quanto à recomposição da vegetação nativa.

360: Quais outros problemas afetam e comprometem a vida do rio Pardo?

Prof. Pirolli:   O despejo de efluentes (esgotos) oriundos de áreas urbanas e a contaminação das águas por agroquímicos e dejetos de animais de criação são um risco e devem ser completamente evitados. A falta de matas ciliares e a falta de manejo das áreas de produção agrícola e pecuária precisam ser resolvidas com programas de recomposição da vegetação das margens dos rios e adoção de técnicas de produção sustentáveis de uso do solo e da água.

360: O que ainda  precisa ser feito pelo rio Pardo?

Prof. Pirolli: Precisa de um plano de manejo dos recursos naturais da bacia, de intensificação de pesquisas para aprofundamento do conhecimento do rio, de sua bacia e da gente que vive na área. Também é fundamental envolver comunidade, políticos e o comitê da bacia na proteção efetiva da água na área.

360: O que cada cidadão pode fazer pelo rio Pardo?

Prof. Pirolli: Primeiro conhecê-lo e saber da sua importância para a região. A partir daí atuar no seu dia a dia de maneira a não poluir e contaminar suas águas. Pequenas ações como não jogar lixo na rua (que poderá ser arrastado pela água das chuvas até o rio); manter parte do quintal permeável para permitir infiltração de água das chuvas o que vai recarregar o lençol freático e as nascentes; e manter árvores na calçada nas áreas urbanas, são importantes para manter o volume e a qualidade das águas do rio Pardo. Além disso, é muito importante que cidadãos participem de órgãos como o Comitê da Bacia Hidrográfica do Médio Paranapanema (CBH-MP) contribuindo com ideias e ações para proteção do rio. Também precisamos que as pessoas votem em políticos que tenham clareza da importância da água e dos recursos naturais para que tenhamos gestores capacitados para implantar as políticas de preservação e recuperação e mantê-las ao longo do tempo.

360: O que prefeitos das cidades da região devem fazer para salvar o rio Pardo?

Prof. Pirolli:  Em primeiro lugar se interessar e se informar com relação ao assunto água, bacias hidrográficas e sua importância para a população e para as atividades econômicas de seus municípios. Se todos tiverem claro de onde vem a água que abastece sua população e para onde vão os efluentes gerados em seus municípios, já teremos um grande avanço. Devem ainda desenvolver políticas de proteção das águas em seus municípios, envolver a população a partir de campanhas de conscientização, e criarem um consórcio para investimentos na proteção da bacia do rio Pardo, pois todos dependem das águas do rio e  estas passam por todos os municípios da bacia. Imaginemos que se um município do alto ou do médio curso do Rio Pardo permitir atividades que degradem as águas do rio os demais municípios que estão na sequência não poderão usá-las ou terão grandes custos para tratá-las. Neste contexto, para que sempre cheguemos a bons termos é importante que os municípios não decidam isoladamente usos intensivos das águas, sem considerar os demais. É fundamental também que os prefeitos participem do comitê da bacia para se integrarem, contribuírem e aprenderem. E, obviamente, devem investir em saneamento, com enfoque no tratamento eficiente de esgotos; e em planejamento ambiental sério e comprometido nas áreas de expansão urbana visando reduzir os processos erosivos, os assoreamentos e a contaminação das águas dos córregos e rios urbanos.

360:O que as empresas, que usam muita água em sua produção, devem fazer para salvar o rio Pardo?

Prof. Pirolli: Se tiverem corpos d´água em suas áreas, protegê-los com matas ciliares, preservá-los não jogando efluentes nos córregos e rios, reduzindo o uso de água e reutilizando-a ao máximo. Devem envolver nestas atividades seus colaboradores, estimulando-os a adotarem estas práticas também em suas casas. Devem também investir em projetos de captação de água das chuvas em seus espaços, de produção de água na bacia onde estão inseridas, de educação ambiental e similares

O rio Pardo, em local onde deságua nas águas do rio Paranapanema, no município de Salto Grande. Riqueza que atravessa 15 cidades e é importante para toda a região

360:  O que os produtores rurais, que dependem da água em sua produção, devem fazer para salvar o rio Pardo?

Prof. Pirolli:  Devem manter as matas ciliares ao redor das nascentes, córregos, rios e lagos em suas propriedades. Também de-vem adotar terraços em nível e bacias de infiltração da água no final destes e ao longo de estradas rurais; e plantar suas culturas em sistemas de preparo mínimo do solo, como plantio direto no caso de culturas que permitem essa técnica (grãos em geral), e abertura de covas somente onde for plantar mudas, como para o caso de frutíferas, silvicultura e similares. Além disso, devem manter a palhada sobre o solo o ano todo, evitando queimadas, para proteção deste dos impactos das gotas da chuva, evitando o surgimento de erosões e assoreamento dos cursos d´água. Aqueles que utilizam sistemas de irrigação precisam extrair o mínimo possível de suas fontes e otimizar a aplicação visando o mínimo de perdas. Já os pecuaristas, além deste conjunto de recomendações, devem evitar o livre acesso de suas criações em qualquer ponto dos córregos e rios, privilegiando locais mais resistentes onde o impacto do pisoteio seja reduzido. O ideal seria retirar a água do rio por meio de mangueiras para que os animais bebam sem precisar entrar nos rios. Da mesma forma, devem evitar o despejo de dejetos de suas criações diretamente nos corpos d´água ou próximo às suas margens. Importante lembrar que a adoção deste conjunto de técnicas nas áreas rurais, mantém a capacidade produtiva dos solos, a qualidade e a quantidade de água, o que mantém, inclusive, as condições econômicas dos produtores rurais.

360: O que poderá acontecer se nada for feito? Em quanto tempo?

Prof. Pirolli::  Em um cenário de descompromisso dos moradores da área da bacia, dos produtores rurais e dos gestores municipais, o solo pode ficar cada vez mais desprotegido, o que reduzirá a infiltração da água e diminuirá a vazão das nascentes. Isso, consequentemente, reduzirá o volume de água nos córregos e no rio Pardo. A água que não infiltrar, passará a escoar superficialmente causando erosões, enxurradas e assoreamento do leito dos córregos e rios. Não podemos esquecer que solo exposto perde nutrientes. E solo pobre empobrece os agricultores, e consequentemente toda população. Da mesma forma, menores volumes de água nos rios trazem dificuldades para a população urbana, inclusive para as atividades econômicas, uma vez que todas em maior ou menor grau, dependem de água. Ao mesmo tempo a água que não infiltra escoa em grandes volumes causando as inundações, que também trazem prejuízos à população. Estas dificuldades já são observadas em algumas partes da bacia. Então caso nada seja feito em questão de anos ou décadas a situação pode se agravar muito. No entanto, na minha visão, há um aumento significativo na consciência sobre estes riscos o que me faz ter esperança de que não chegaremos em situação tão drástica. Mas é importante estarmos atentos.

360: Se pudesse decidir o que fazer para salvar o rio Pardo, o que faria?

Prof. Pirolli:  Primeiro, uma grande campanha de conscientização da população sobre a importância do rio e de suas águas, e da preservação dos recursos naturais da bacia do Pardo. Em segundo lugar um plano de manejo da bacia toda, envolvendo população, produtores rurais, políticos, gestores públicos de todos os municípios da bacia, pesquisadores e comitê da bacia. Este plano conteria uma caracterização de toda área, um cronograma de recuperação das áreas degradadas, um plano de preservação das áreas em boas condições, um sistema de monitoramento das condições do solo, da água, da vegetação nativa, das atividades agropecuárias, industriais, comerciais, e todas as demais. Também implantaria programas de orientação e de apoio a produtores rurais, a empresários urbanos, à população em geral e, principalmente, aos professores e alunos das escolas de todos os níveis, visando o preparo de todos para  um convívio harmônico com os recursos da bacia.

360: Qual sua mensagem para quem vive nas cidades que dependem das águas do rio Pardo?

Prof. Pirolli: Economizem água, reduzam a poluição, mantenham gramados e jardins nos seus quintais, plantem árvores nas suas calçadas, participem dos programas de coleta seletiva, façam compostagem e, se pu-derem, coletem água das chuvas e implantem sistemas de geração de energia solar.

360: O que significa Rio Pardo VIVO?

Prof. Pirolli:  Significa as águas do rio Pardo correndo limpas e protegidas desde suas nascentes até sua foz. Significa o ecossistema do rio equilibrado, permitindo a vida em todas as suas formas e fornecendo água para pessoas e suas atividades. Devemos lembrar que os rios são as veias e artérias do planeta Terra. Neste contexto, o rio Pardo é a artéria que transporta a água, e consequentemente a vida na sua bacia hidrográfica. Deixar o rio morrer seria condenar a nossa espécie a perecer.  Assim, o Rio Pardo VIVO significa a parcela da humanidade que habita sua bacia hidrográfica VIVA.

360: Por que as águas merecem um dia mundial?

Prof. Pirolli:Porque as águas são funda-mentais para todos os seres vivos, com destaque para os seres humanos. Nosso corpo é formado por 70% de água. Nós precisa-mos beber água todos os dias. E água limpa. No entanto, muitas de nossas atividades contaminam as águas. As mesmas águas que nós precisamos beber! E, muitas vezes as pessoas, no seu dia a dia, esquecem disso. Muitas nem sabem de onde vem a água que chega em suas torneiras. Muitas pessoas não sabem para onde vai a água depois de usada em sua casa. E esse desconhecimento gera descompromisso. Mas, se todos dependemos de maneira vital da água, precisamos conhecê-la em todo seu ciclo e em todos os seus caminhos. Então é importantíssimo que esta consciência esteja presente em todas as pessoas o tempo todo. Mas, para demarcar um dia especial, de reflexão e conscientização, e principalmente, de lembrança desta dependência que temos da água, é que foi definido, em 1993 pela ONU, o dia 22 de março como o Dia Mundial da Água.