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Edição 176 - Setembro/20

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Por que a natureza faz bem aos negócios e para o bolso

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Por que a natureza faz bem aos negócios e para o bolso

Não são apenas os ambientalistas ou os “ecochatos”, como muitos costumam chamar aqueles que lutam pela preservação e respeito ao meio ambiente que colocaram essa questão no topo da lista de prioridades, seja em termos empresariais ou na vida cotidiana. O mercado financeiro também está atento e focado a essa questão. A chamada Bioeconomia, que coloca boas práticas ambientais no topo da lista de prioridades para se avaliar um crédito ou investimento já é uma realidade que atinge em cheio empresários e investidores brasileiros.

 

A mecânica desse processo é bastante simples: internamente, os principais bancos brasileiros, como Itaú-Unibanco, Banco do Brasil e Bradesco, já operam com linhas de crédito mais vantajosas para quem adota boas práticas ambientais. Do mesmo modo, empresas que desmatam ou poluem o meio ambiente, comprometendo a capacidade de sobrevivência do planeta, já estão encontrando grande dificuldade para conseguir empréstimos para seus empreendimentos. A questão tem apoio da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) e do Banco Central do Brasil, que acaba de  divulgar  sua nova política de sustentabilidade, que intensifica o foco em boas práticas ambientais por parte das empresas e do setor agro, destacando as vantagens financeiras da sustentabilidade.

 

O mesmo acontece quando se trata de investimentos. Grandes fundos internacionais, que são hoje a fonte de rendimento para quem quer investir, estão tirando de apoiar financeiramente empresas que não adotam boas práticas ambientais. Neste contexto, tanto a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), como a Bolsa de Valores (B3) trabalham de modo a ampliar o foco em práticas ambientais de empresas com ações no mercado e a oferta de investimentos que cumpram as premissas ambientais do mercado internacional.

 

Essa realidade, que ganha peso ainda maior quando se trata do país estabelecer bons acordos comerciais com países desenvolvidos, especialmente da Europa, não fica apenas nas esferas de grandes produtores rurais, grandes empresas e de quem tem capital investido. Ela chega até aos pequenos empreendedores e também a toda a gente que consegue juntar algum recurso para poupar e quer, naturalmente, vê-lo rendendo.

 

 

Para nos explicar como essa questão afeta a todos, mais uma vez temos a ajuda do especialista em finanças Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, empresa multinacional que avalia os riscos que um país um uma instituição representa para investidores.

360: Desde quando o meio ambiente entrou na pauta das instituições financeiras?

Alex Agostini:A preocupação sempre existiu, é fato. Mas foi no fim da década de 80 que as instituições começaram a entender que o sistema financeiro é um importante meio para ajudar na mudança de hábitos e focar na responsabilidade socioambiental. Vale lembrar a lendária campanha da ONG PETA, no início dos anos 90, contra o uso de peles de animais nas coleções de moda, ou mesmo as ações de combate ao trabalho escravo na produção de roupas de grife.

360: Por que isso acontece?

Alex Agostini: Com os eventos da globalização cultural, social e financeira, iniciado os anos 80, aumentou o contingente de pessoas engajadas nas causas de proteção ao meio ambiente, visto a ampla divulgação nos meios de comunicação (rádio, TV, jornais e, principalmente, a internet). Neste contexto, as instituições financeiras, que são o canal irrigador para o desenvolvimento das empresas por concederem crédito ou compra de títulos privados ou de ações, correm grande risco de ter sua imagem associada às empresas que não cumprem com as boas práticas de sustentabilidade e isso tem forte impacto sobre a percepção dos clientes dessas instituições e, portanto, correm grande risco de perderem clientes, que são a fonte de seus negócios.

360: Quais empresas e produtores, de qual tamanho, de-vem se preocupar com a exigência dos bancos em relação a boas práticas ambientais para obtenção de crédito?

Alex Agostini: É claro que há um grupo de empresas que estão, naturalmente, mais expostas à opinião pública sobre as questões socioambientais. Porém, todas as empresas, de qualquer tamanho, devem se preocupar com essas questões, visto que é um caminho sem volta a fiscalização e regulação quanto aos princípios de sustentabilidade: meio ambiente, o social e a governança; pois, uma empresa nasce pequena, mas tem objetivos de crescer e, um dos caminhos, é utilizar-se de recursos do mercado de capitais.

360: Quais são essas boas práticas ambientais no meio agro e quais são para empresas em geral?

Alex Agostini: São inúmeras as práticas ambientais que as empresas podem adotar para ter mais impacto sobre a questão da sustentabilidade. Por exemplo, a adoção da rastreabilidade dos alimentos que possa garantir que toda a cadeia produtiva não esteja infringindo questões como o uso ilegal de terras desmatadas ou, ainda, o uso de produtos com risco de extinção como: palmito-juçara, melão de montreal, cebola sapporokii, entre outros.

360: Como funciona a exigência de boas práticas ambientais no caso de fundos de investimento?

Alex Agostini: Em geral, os prospectos dos fundos apresentam as bases legais e estratégias será enquadro. Ou seja, deixar claro ao investidor que o fundo segue a regulação da CVM e, dessa forma, o fundo seguirá exatamente o que determina a lei para o ativo que o fundo fará a gestão. Como a CVM está empenhada em ampliar as questões socioambientais na sua regulação, então as instituições utilizarão o cumprimento dessas normas como forma de captar recursos junto aos investidores.

360: Como a bioeconomia atinge o cidadão comum?

Alex Agostini: São diversos impactos. Desde a questão relacionada a origem ilegal de produtos que afeta a qualidade e segurança alimentar do cidadão, até a questão de investimentos em empresas com responsabilidade socioambiental comprovada, que impacta diretamente na qualidade da saúde pública de uma cidade, país ou mesmo um continente, e isso tem efeitos diretos na gestão das contas públicas, visto os gastos com tratamentos de doenças.

360: No caso de pequenos produtores, a questão ambiental também pesa na hora de obter crédito?

Alex Agostini: Sim. O pequeno produtor, em geral, está relacionado a uma cooperativa agrícola ao qual entrega sua produção e, em geral, utiliza-se de linhas específicas de crédito agrícola que tem juros muito menores que a média de mercado. Então, é necessário que o pequeno produtor seja bem orientado pelas cooperativas para que haja o cumprimento dos princípios básicos de responsabilidade socioambiental, pois, o não cumprimento pode incorrer na potencial perda de linhas de crédito e, consequentemente, elevados prejuízos, visto que a tendência é que as instituições financeiras determinem condições comprovadas para a concessão do crédito.

360: Que tipo de investidor deve dar atenção às boas práticas ambientais?

Alex Agostini:  Em geral, os investidores que têm consciência do impacto das boas práticas socioambientais sobre a condição da vida da população, ainda que o impacto de uma ou outra prática seja no médio e longo prazo. Afinal, uma sociedade saudável tem muito mais potencial de gerar riqueza e alimentar todo o ciclo de investimentos.

360: Para quem quer investir de 100,00 ou mais por mês, como essa questão deve ser observada e quais cuidados devem ser tomados?

Alex Agostini: Mesmo sendo um valor relativamente baixo se comparado à média dos investimentos, qualquer centavo investido deve se considerar qual a posição da instituição em relação aos princípios básicos da responsabilidade social. Ou seja, é importante que o investidor, mesmo o pequeno, procure saber ou conhecer melhor a sua instituição de relação financeira, pois somente essa postura fará com que as atuais propostas se tornem realidade e consolidem, ao longo do tempo, todo o processo de conscientização por parte das empresas.

360: Como as agências de classificação de risco, como a Austin Rating, vão incorporar em suas avaliações essa questão de responsabilidade socioambiental?

Alex Agostini: Entendemos que todas as agências já estão incorporando em suas metodologias as questões de responsabilidade socioambiental, visto que há a regulação da CVM tanto para as operações de captação de recursos, como para a gestão de fundos. Neste sentido, a Austin Rating tem um grupo de trabalho empenhado em compreender como as avaliações de risco vão incorporar as questões, visto que são inúmeros os indicadores que podem ser utilizados e, por ora, ainda não há uma normalização desses indicadores, em nível regional e global, para que possam ser utilizados frequentemente como ocorre, por exemplo, com o uso dos indicadores financeiros como faturamento, endividamento, fluxo de caixa, inadimplência, entre outros.

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