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Edição 182 - Março/21

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Fazer o bem sem ter vintém

Voluntários da Vaquinha do Alimento em dia de distribuição do kit mensal para as crianças e jovens da Vila Divineia. Comprometidos, entrosados e dispostos a colaborar

Em novembro de 2018 eu pedi a uma amiga que fosse acompanhar um evento no teatro municipal da cidade, me representando, pois estava há mais de 24 horas sem dormir por causa da produção do jornal. Eram mais ou menos 19h00 e eu fui finalmente descansar. Mas o sossego não veio. Algo me dizia para ir ao teatro. Levantei, me aprontei e fui. Cheguei atrasada e perdi parte da programação da segunda edição do Fala Via, um coletivo cultural que se apresentava pela segunda vez levando a público  questões da Vila Divineia, bairro carente da cidade, em forma de teatro, cinema, dança, poesia.

O atraso não me impediu de assistir ao documentário que contava a história do Café da Manhã

Dominical da dona Tereza. Assisti emocionada ao depoimento dela,  contando que há mais de 20 anos ela serve um leite com chocolate e pão com manteiga para as crianças da vila. “Elas precisavam tomar um leite pelo menos uma vez por semana”, diz ela no filme. Aquilo tocou meu coração.

 Acabado o evento, fui pra casa e no dia seguinte procurei saber onde ela morava. Peguei caixas de melão que não seguiriam para venda, mas são deliciosos e fui até a casa dela. Entreguei as frutas e perguntei: — Falta alguma coisa no seu café? Ela disse que faltava leite, pois estava misturando com água. Perguntei a quantidade: 15 litros por semana. Prometi levar o leite para ela toda semana a partir daquele dia. Assim nasceu a Vaquinha do Alimento.

A primeira coisa que fiz foi ligar no supermercado onde vendem o leite que é produzido pela mesma família dos donos. Eu queria levar leite de qualidade, integral e fresco para a dona Tereza, que me disse atender em média 100 crianças por se-mana. Com o preço em mãos, fiz as contas de quanto precisaria por mês. Eu não queria assumir aquela quantia, não cabia no meu orçamento, mas estava disposta a conseguir o dinheiro, regular e organizadamente. Assim eu me tornei uma agente social. Algo que eu nunca imaginei fazer na vida.

Com um sistema simples, de rodízio de doações, consegui pensar em algo prático, simples e que não tomasse muito do meu tempo, nem aborrecesse as pessoas. Eu precisaria de 12 doadores que se revezariam na doação dos 15 litros de leite, que somava na época R$ 45,00. Cada um doaria apenas uma vez a cada 12 semanas, ou seja, 4 vezes por ano. Não seria muito. Nem mesmo para mim. Mas não me incluí na lista. Não foi preciso. Fiz uma arte, expliquei do que se tratava e disparei para as amigas e conhecidas que tinha no whatsapp. De cara formei 3 grupos de 12 doadores e pude, além do leite, levar alimentos para “turbinar” o café da manhã da dona Tereza todos os domingos, sem furar nenhuma semana.

Nessa empreitada, eu tive apoio de muita gente. Inclusive de voluntários do café, como a família do Cristiano Miranda. E a ação foi crescendo. Quando me dei conta, já eram 6 grupos de doadores e, com mais dinheiro para as compras, os alimentos começaram a sobrar. Resolvi então mudar a sistemática, atender a mais crianças e, com o excedente, passei a suprir  também entidades da cidade.

Hoje, passados pouco mais de dois anos, a Vaquinha do Alimento atende a 280 crianças e adolescentes da Vila Divineia, devidamente cadastrados. A ideia é conhecer cada um deles. Saber onde moram, se têm irmãos, como vivem. Nos dias de entrega do kit, como muitos não aparecem, conseguimos atender crianças de outros bairros e das entidades. A distribuição, desde a pandemia, foi sendo adaptada e passou a ser mensal. São 8 grupos de doares e um grupo de empresas que nos ajudam a reforçar o kit, para garantir que seja farto, de qualidade e saboroso. Esse aumento todo de doações e crianças inscritas na VAL, como chamamos a nosso Programa de Inclusão Alimentar Vaquinha do Alimento, nos levou a formar um grupo muito especial: o de voluntários. Pessoas que não doam dinheiro (é uma regra), mas doam seu tempo, seu trabalho, sua ação.

Gente que, como eu, entendeu na prática que não é preciso ter dinheiro sobrando para ajudar quem precisa mais do que a gente. Basta agir. Com responsabilidade, comprometimento e amor, muito amor. Com a palavra, os voluntários – Camila Jovanolli, Fátima Rodrigues, Isa-bela São Miguel e Leo Wagner são voluntários da Vaquinha do Alimento há algum tempo. Fátima começou em fevereiro de 2020,  quando a VAL, ainda era semanal. Isabela e Leo passaram a me ajudar em agosto, quando tivemos que nos organizar para distribuir os alimentos a cada mês, em área pública. Camila está nos ajudando desde  outubro, quando Deus soprou seu nome no meu ouvido. Eu precisava de ajuda.

Em comum nós temos situação financeira: somos pessoas sem recursos sobrando para ajudar as pessoas. Com exceção do Leo, que sempre foi caridoso,  também somos novatos nessa empreitada. Veja como eles avaliam a experiência da caridade sem por a mão no bolso:

 

360: Por que você aceitou ajudar a Vaquinha do Alimento?

Camila:  Topei participar da Vaquinha do Ali-mento primeiro por curiosidade, já que desconhecia o trabalho voluntário. E também porque, como preciso do andador ortopédico para andar, quis me desafiar, ver como e até onde poderia ir para superar minhas limitações físicas e trabalhar.

Fatima: Achei que era um programa muito importante. É muita alegria e satisfação poder ajudar essas pessoas porque a gente tem que fazer o bem para receber o bem.

Isabela: Eu aceitei porque achei legal esse projeto e senti que fazer parte dele seria muito bom para mim.

Leo: Aceitei ajudar a Vaquinha principalmente quando soube que era voltada para crianças. Quando em São Paulo, frequentava um orfanato na Vila Alpina. Não levava brinquedos, roupas, muito menos dinheiro. Eu doava meu tempo, amor, carinho e atenção àquelas vozes tão carentes de serem ouvidas. Por que crianças? Porque elas são nosso futuro e principalmente precisam de cuidado e atenção, saber que nos importamos com elas. Sua inocência, fragilidade precisam de proteção e seus sonhos de apoio, não de julgamentos.

360: O que fazia no tempo que agora se dedica a essa atividade?

Camila:  Desde o meu acidente, há 7 anos, estou aposentada por invalidez. Sair de casa para participar da Vaquinha do Alimento me faz um bem enorme.

Fatima: Eu não fazia nada, ficava disponível. Sem ter o que fazer, a gente começa a pensar muita coisa. Agora, com a ajuda na Vaquinha do Alimento, eu não tenho mais tempo de pensar besteira porque me dedico a ajudar essas crianças.

Isabela:Antes de participar dessa atividade eu ficava livre, não tinha compromissos.

Leo: Geralmente a Vaquinha do Alimento acontece aos finais de semana. Antes de me evolver nesse projeto, dedicava esse tempo aos meus filhos e até mesmo trabalhos que se estendiam ao final de semana.

360:  Você imaginava fazer esse tipo de trabalho voluntário para ajudar as pessoas?

Camila: Sinceramente, nunca me vi fazendo trabalho voluntário. Admito que pensava ser um trabalho integral, que demandava muito dinheiro e esforço para obter pouco resultado, o que entendo agora, está longe da verdade. Cada um de nós, voluntários, faz uma parte que beneficia muita gente.

Fatima: Olha, eu nunca imaginei que um dia estaria fazendo esse tipo de trabalho. Hoje, faço esse serviço com muita alegria.

Isabela: Não imaginava fazer esse tipo de trabalho voluntário, agora que faço, percebo que todos, algum dia, podem fazer, independente de idade ou de vida financeira.

Leo: Confesso que não sabia que aqui em Santa Cruz havia um trabalho tão bonito, organizado e sério de caridade. Então fiquei muito feliz ao conhecer o programa e por poder fazer parte dele.

360:  Qual a maior recompensa dessa atividade?

Camila:  Depois de todos esses anos de recuperação, a felicidade que sinto levando  alimentos para as crianças é extraordinária. Ser útil é a maior recompensa.

Fatima: Tenho muita recompensa. Agradeço a Deus porque, a partir do momento que comecei a colaborar com esse programa, sinto que estou recebendo. Já tinha perdido a esperança que eu ia conseguir, mas Deus está fazendo um milagre muito grande na minha vida.

Isabela: Ver o sorriso das crianças é a maior recompensa.

Leo: Com certeza minha recompensa é fazer parte desse plantio de sementes de amor, de caridade e esperança nesses coraçõezinhos férteis.

360: Você pretende continuar a fazer esse trabalho voluntário?

Camila:  Sim, enquanto a Vaquinha existir, quero fazer parte. Me faz bem ajudar.

Fatima:: É cansativo, mas a gente nem sente porque é um trabalho gratificante. Eu acho que até quando Deus me der saúde, meus braços e minhas pernas perfeitas, minha visão perfeita, não penso em desistir.

Isabela: Sim. Enquanto tiver esse tempo livre eu quero continuar.

Leo: Pretendo continuar contribuindo com meu trabalho e quero expandir meu envolvimento futuramente.

360: Você sabia que poderia ajudar tanto as pessoas sem ter que doar dinheiro?

Camila:  Não. Como disse, achava que para ajudar precisava de muito dinheiro.

Fatima: Não, nunca pensei. Achava que precisava de dinheiro para ajudar as pessoas e eu não tinha condições.

Isabela: Não, eu achava que só poderia ajudar quem tivesse dinheiro para dar.

Leo: Sabia sim. Sempre tive isso dentro de mim, desde criança, quando tirei minha blusa de frio para dar um garotinho quase pe-lado que pedia dinheiro no semáforo. Senti no coração de fazer isso e fiz. Nunca esqueci o olhar dele pra mim. Tocou meu espírito.

360:  Que aprendizado essa atividade traz?

Camila:  Exercitar a empatia e a solidariedade, esse tem sido meu aprendizado.

Fatima:: Aprendi que nós temos que ajudar as pessoas, que ninguém é melhor que ninguém. Pensava que as pessoas tinham ajuda do governo e vi que elas são mesmo carentes e precisam dessa ajuda. Aprendi que a gente tem que procurar ajudar o próximo.

Isabela: O maior aprendizado que tenho tirado dessa experiência é que não precisa de muito para ajudar as pessoas. Basta você querer e sentir no coração que isso vai fazer outras pessoas felizes através do seu ato.

Leo: Aprendemos principalmente a ter empatia. A não julgar por aparências e condição social ou educacional. Aprendemos na prática o sentido da caridade, da dedicação ao outro, ainda que desconhecido.

360: Com essa experiência, o que a caridade significa hoje para você?

Camila: Significa estar mais perto de Deus. Agradeço a Ele por ter soprado meu nome para fazer parte da Vaquinha do Alimento, pois estava sem propósito, sem rumo. Sinto que o tempo que dedico sendo voluntária é uma maneira de agradecer por estar viva.

Fatima: Acho que, se eu não estivesse ajudando na Vaquinha do Alimento, a minha vida estaria parada do mesmo jeito que era ante. Trabalhava, corria atrás das coisas, mas não conseguia nada. É como eu falei, muita coisa mudou na minha vida e, se Deus qui-ser, vou conseguir muito mais com esse trabalho que estou fazendo para as crianças, para as famílias.

Isabela: Praticar a caridade, para mim, significa ter empatia e amor ao próximo. A caridade é a coisa mais linda de se ver e não tem dinheiro que pague ver a felicidade das pessoas estampada no rosto.

Leo: A caridade pra mim é o exercício prático, real do amor. É um dever moral de todo ser humano.

Tema recorrente – Nas próximas edições, o 360 vai trazer novos depoimentos de pessoas que praticam a caridade. A ideia é abordar esse tema sobre diversos pontos de vista.